Escore de Child-Pugh

O Escore de Child-Pugh (também conhecido historicamente como Escore de Child-Turcotte-Pugh ou CTP) é a ferramenta diagnóstica clássica e mais amplamente reconhecida para avaliar o prognóstico e a gravidade da doença hepática crônica, com ênfase na cirrose.

Ele utiliza 5 parâmetros fundamentais (2 manifestações clínicas e 3 marcadores laboratoriais) para classificar o paciente hepatopata em três classes de gravidade (A, B ou C), orientando o risco cirúrgico pré-operatório, a necessidade de medicações e a urgência para um eventual transplante.

Escore de Child-Pugh

Gravidade da Cirrose Hepática

PONTUAÇÃO TOTAL
5
Classe A
Cirrose Compensada

Diretriz e Conduta Prática

O escore de Child-Pugh é fundamental para estimar a sobrevida de pacientes com cirrose hepática e avaliar o risco de mortalidade perioperatória em cirurgias abdominais.

Classe A (5-6)
Doença Compensada. Sobrevida em 1 ano de 100%, e em 2 anos de 85%. Risco cirúrgico aceitável (mortalidade perioperatória de 10%).
Classe B (7-9)
Comprometimento Funcional. Sobrevida em 1 ano de 80%, e em 2 anos de 60%. Risco cirúrgico moderado (mortalidade perioperatória de 30%). Transplante hepático pode ser indicado.
Classe C (10-15)
Doença Descompensada. Sobrevida em 1 ano de 45%, e em 2 anos de 35%. Contraindicação para cirurgias eletivas (mortalidade perioperatória de 76-82%). Avaliação urgente para transplante.
Referência Científica: Pugh RN, Murray-Lyon IM, Dawson JL, Pietroni MC, Williams R. Transection of the oesophagus for bleeding oesophageal varices. Br J Surg. 1973;60(8):646-649. doi:10.1002/bjs.1800600817.

O que é o Escore de Child-Pugh?

O Escore de Child-Pugh é o padrão-ouro tradicional na gastroenterologia e hepatologia para estratificar a reserva funcional do fígado em pacientes com doença hepática crônica. Originalmente concebido por C.G. Child e J.G. Turcotte em 1964 (apenas para prever a mortalidade durante cirurgias de descompressão portal) e posteriormente modificado por R.N. Pugh em 1973 (substituindo o estado nutricional pelo Tempo de Protrombina/INR), o escore tornou-se um pilar universal da medicina clínica.

Hoje, além de seu papel original no risco cirúrgico, o Child-Pugh é vital para guiar o ajuste de doses de medicamentos (farmacocinética hepática), monitorar a progressão natural da cirrose e, juntamente com o escore MELD, auxiliar na avaliação para inclusão em lista de transplante hepático.

Parâmetros e Como Calcular (Sistema de Pontuação)

A calculadora processa cinco variáveis clínicas e laboratoriais. Para cada variável, o paciente recebe uma pontuação que varia de 1 (normal/leve) a 3 (grave):

  1. Bilirrubina Total: Um marcador crucial da capacidade de excreção biliar e conjugação hepática. Níveis elevados indicam falência da depuração.
  2. Albumina Sérica: O principal marcador crônico da capacidade de síntese proteica do fígado. Hipoalbuminemia reflete cronicidade severa e perda de massa hepatocelular.
  3. Tempo de Protrombina (INR / RNI): Avalia rapidamente a função de síntese dos fatores de coagulação dependentes de vitamina K (Fatores II, VII, IX, X). Como o Fator VII tem meia-vida muito curta, o INR é um excelente marcador agudo/subagudo da função sintética.
  4. Ascite: O acúmulo de líquido peritoneal é avaliado clinicamente e por imagem (ausente, leve/responsiva a diuréticos, ou moderada a grave/refratária). Reflete a gravidade da hipertensão portal.
  5. Encefalopatia Hepática: Disfunção neurológica gerada pelo acúmulo de amônia e outras neurotoxinas não depuradas pelo fígado. Variável de grau I a IV (ausente, confusão leve/asterixe, até estupor e coma).

Interpretação das Classes de Child-Pugh e Prognóstico

A soma total dos pontos varia de 5 a 15. O resultado categoriza o paciente cirrótico em uma das três classes, o que traz profundas implicações na sobrevida e conduta médica:

  • Classe A (5 a 6 pontos) – Doença Compensada:
    • Sobrevida em 1 ano: ~100%.
    • Sobrevida em 2 anos: ~85%.
    • Implicação: Reserva hepática preservada. Risco cirúrgico (mortalidade perioperatória) é baixo (em torno de 10% para cirurgias abdominais).
  • Classe B (7 a 9 pontos) – Comprometimento Funcional Significativo:
    • Sobrevida em 1 ano: ~80%.
    • Sobrevida em 2 anos: ~60%.
    • Implicação: Doença hepática descompensada inicial. Risco cirúrgico moderado (mortalidade perioperatória chega a 30%). O ajuste de doses de medicamentos com metabolização hepática torna-se mandatório.
  • Classe C (10 a 15 pontos) – Doença Gravemente Descompensada:
    • Sobrevida em 1 ano: ~45%.
    • Sobrevida em 2 anos: ~35%.
    • Implicação: Falência hepática terminal. Risco cirúrgico proibitivo (mortalidade > 80% em cirurgias abdominais não relacionadas a transplante). Alta urgência para avaliação de transplante hepático.

Limitações do Escore (Child-Pugh vs. MELD)

Embora universalmente ensinado, o Child-Pugh possui limitações inerentes. As duas variáveis clínicas (grau de ascite e encefalopatia) são altamente subjetivas e dependem do avaliador médico. Além disso, a presença de ascite e encefalopatia pode ser controlada ativamente por tratamento médico temporário (diuréticos, lactulose), o que pode mascarar a verdadeira gravidade basal do fígado (“fenômeno do teto”).

Para contornar isso, o Escore MELD (Model for End-Stage Liver Disease) ganhou destaque, pois baseia-se exclusivamente em variáveis objetivas de laboratório (Bilirrubina, INR e Creatinina). Hoje, o MELD é o principal escore utilizado para a alocação de órgãos para transplante na maioria dos países, enquanto o Child-Pugh continua sendo preferido para a avaliação beira-leito rápida, estratificação clínica de estudos e ajuste de dose de medicações (onde o Child-Pugh é recomendado oficialmente pelas agências regulatórias como o FDA).

Nota sobre Doenças Colestáticas: Em patologias como a Colangite Biliar Primária (CBP) ou Colangite Esclerosante Primária, os níveis basais de bilirrubina são naturalmente mais altos. Existem modificações da escala de Child-Pugh específicas para estas condições onde os pontos de corte da bilirrubina são ajustados (ex: 1 ponto para < 4 mg/dL; 2 pontos para 4-10 mg/dL; 3 pontos para > 10 mg/dL).

Referências Bibliográficas

Referências e Guidelines Científicos
  • Child, C. G., & Turcotte, J. G. (1964). Surgery and portal hypertension. Major Problems in Clinical Surgery, 1, 1-85.
  • Pugh, R. N., Murray-Lyon, I. M., Dawson, J. L., Pietroni, M. C., & Williams, R. (1973). Transection of the oesophagus for bleeding oesophageal varices. British Journal of Surgery, 60(8), 646-649.
  • Cholongitas, E., Papatheodoridis, G. V., Vangeli, M., Terreni, N., Patch, D., & Burroughs, A. K. (2005). Systematic review: The model for end-stage liver disease–should it replace Child-Pugh’s classification? Alimentary Pharmacology & Therapeutics, 22(11-12), 1079-1089.
  • Tsoris, A., & Marron, R. (2025). Child Pugh Score. StatPearls Publishing. PubMed/NCBI.

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