A Diarreia e Gastroenterite de Origem Infecciosa, codificada no CID-10 A09, define-se como a ocorrência de três ou mais evacuações amolecidas ou líquidas em um período de 24 horas, ou frequência maior do que a habitual, frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos e dor abdominal espasmódica.

O quadro geralmente é agudo (duração menor que 14 dias), autolimitado e provocado por etiologia viral. O manejo primordial visa a prevenção e reversão da desidratação.


1. Etiologia e Mecanismos

As gastroenterites infecciosas são transmitidas primariamente pela via fecal-oral (ingestão de água ou alimentos contaminados, ou contato direto com superfícies infectadas).

  • Virais (Principal Causa Global): Norovírus (causa comum de surtos agudos em adultos e navios de cruzeiro), Rotavírus (mais prevalente em crianças pequenas não vacinadas), Adenovírus entérico e Astrovírus.
  • Bacterianas (10-20%): Campylobacter jejuni, Salmonella spp., Shigella spp., Escherichia coli diarreiogênica (ex: E. coli entero-hemorrágica e enterotoxigênica) e Vibrio cholerae. Frequentemente causam diarreia inflamatória (disenteria).
  • Parasitárias: Giardia lamblia e Entamoeba histolytica (causadores de quadros subagudos ou crônicos) e Cryptosporidium.

2. Avaliação Clínica e Desidratação

A avaliação clínica foca na busca por sinais de alarme (como sangue nas fezes ou febre alta constante) e na avaliação rigorosa do estado de hidratação (critérios da Organização Mundial da Saúde).

Parâmetros de Avaliação de Desidratação (OMS):

  1. Estado geral: Alerta (Sem desidratação); Irritado/inquieto (Desidratação); Letárgico/inconsciente (Desidratação Grave).
  2. Sede: Bebe normal (Sem); Sedento, bebe avidamente (Desidratação); Incapaz de beber (Grave).
  3. Sinal do Pregueamento (Turgor cutâneo): Retorna rapidamente (Sem); Retorna lentamente (Desidratação); Retorna muito lentamente > 2s (Grave).
  4. Olhos: Normais (Sem); Fundos (Desidratação); Muito fundos (Grave).

3. Conduta Terapêutica

A reidratação é a pedra angular do tratamento. A conduta é definida baseando-se no grau de desidratação do paciente.

Plano A: Prevenção (Paciente Sem Desidratação)

  • Manejo ambulatorial/domiciliar.
  • Oferta de líquidos: Aumentar a ingestão de líquidos caseiros ou Soro de Reidratação Oral (SRO) após cada evacuação diarreica.
  • Alimentação: Manter a dieta habitual (não suspender amamentação). Evitar alimentos ultraprocessados ou ricos em açúcares refinados.
  • Zinco: Para crianças < 5 anos, prescrever Sulfato de Zinco por 10 a 14 dias para acelerar a recuperação da mucosa e reduzir a recorrência.

Plano B: Terapia de Reidratação Oral (Desidratação Leve/Moderada)

  • Ocorre na unidade de saúde, sob observação.
  • SRO supervisionado: 50 a 100 mL/kg de peso corporal no período de 4 horas, oferecido em pequenos goles.
  • Reavaliar continuamente. Se o paciente hidratar e tolerar, dar alta para Plano A. Se apresentar vômitos incoercíveis, avançar para terapia venosa ou uso de antieméticos.

Plano C: Reidratação Intravenosa (Desidratação Grave)

  • Emergência médica. Necessita de acesso venoso imediato.
  • Fase Rápida (Expansão): Ringer Lactato ou Soro Fisiológico 0,9%. Protocolos pediátricos da OMS indicam 100 mL/kg (sendo 30 mL/kg rápidos, seguidos de 70 mL/kg). No adulto, bolus de expansão (500 a 1000 mL) visando restabelecimento imediato da perfusão.

4. Medicações Adjuvantes

Considerações Clínicas

Quando prescrever Antibióticos?

O uso empírico de antibióticos na diarreia aguda é proscrito na grande maioria dos casos. O uso fica restrito e formalmente indicado para pacientes com Disenteria grave (fezes com sangue macroscópico + febre alta), Cólera grave documentada, Imunossuprimidos, ou diarreia do viajante grave. O uso indevido altera a flora intestinal e prolonga o estado de portador na infecção por Salmonella.

  • Antieméticos: A Ondansetrona (VO ou IV) pode ser utilizada para cessar os vômitos e viabilizar a hidratação oral (Plano B), reduzindo a taxa de internações e punções venosas em pediatria.
  • Antidiarreicos (Loperamida): Uso contraindicado em crianças e na presença de febre ou disenteria, pois retardam o clearance do patógeno e aumentam significativamente o risco de megacólon tóxico e sepse. Podem ser usados por curtos períodos em adultos sem febre.
  • Probióticos: Saccharomyces boulardii ou Lactobacillus rhamnosus GG podem abreviar sutilmente a duração da diarreia aquosa viral (redução de cerca de 1 dia), mas nunca substituem a hidratação.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Guarino, A., Ashkenazi, S., Gendrel, D., Lo Vecchio, A., Shamir, R., & Szajewska, H. (2014). European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition/European Society for Pediatric Infectious Diseases evidence-based guidelines for the management of acute gastroenteritis in children in Europe: update 2014. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, 59(1), 132-152.
  • Riddle, M. S., DuPont, H. L., & Connor, B. A. (2016). ACG Clinical Guideline: Diagnosis, Treatment, and Prevention of Acute Diarrheal Infections in Adults. American Journal of Gastroenterology, 111(5), 602-622.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). The treatment of diarrhoea: A manual for physicians and other senior health workers, 4th ed. Genebra, OMS, 2005.