A Dengue, codificada no CID-10 A90 (Dengue Clássica) e A91 (Dengue Hemorrágica), é uma arbovirose aguda sistêmica transmitida pela picada da fêmea infectada do mosquito Aedes aegypti.

No Brasil e em outros países tropicais, a dengue é uma das principais emergências de saúde pública durante as estações chuvosas. Seu manejo clínico não requer medicamentos complexos, mas sim o reconhecimento precoce dos sinais de alarme e a hidratação venosa agressiva no momento correto.


1. Apresentação Clínica e Fases da Doença

A dengue possui um espectro clínico muito amplo que evolui em três fases distintas:

Fase Febril (Dias 1 a 3)

Apresentação clássica de síndrome febril aguda de início súbito.

  • Sintomas Cardinales: Febre alta (39-40°C), cefaleia intensa, dor retro-orbital marcante, mialgia incapacitante (a “febre quebra-ossos”), artralgia e prostração.
  • Exantema: Pode surgir rash cutâneo maculopapular (frequentemente com ilhas de pele poupada) acompanhado de prurido intenso, geralmente no declínio da febre.

Fase Crítica (Dias 3 a 6)

O momento de maior perigo. Com a queda (defervescência) da febre, uma minoria dos pacientes evolui para a fase crítica, caracterizada pelo extravasamento de plasma causado pelo aumento da permeabilidade capilar. O hematócrito aumenta rapidamente e a pressão arterial cai, podendo levar ao Choque.

Fase de Recuperação (Dias 7 a 10)

Reabsorção do fluido extravasado. Há melhora do estado geral e retorno do apetite. Cuidado com o risco de hipervolemia (edema agudo de pulmão) caso a hidratação venosa intensiva seja mantida desnecessariamente nesta fase.


2. Diagnóstico Laboratorial

A suspeita em áreas endêmicas é eminentemente clínica e epidemiológica.

  • Até o 5º dia de sintomas: Pesquisa do Antígeno NS1 (Teste rápido ou ELISA).
  • Após o 6º dia de sintomas: Sorologia IgM e IgG.
  • Hemograma: Obrigatório. Os achados clássicos são Leucopenia, linfocitose atípica e, mais tardiamente, Trombocitopenia (plaquetas baixas) acompanhada de Hemoconcentração (hematócrito elevado indicando extravasamento plasmático).

3. Sinais de Alarme (Red Flags)

A presença de apenas um sinal de alarme muda o estadiamento do paciente e exige internação e hidratação venosa imediata:

  • Dor abdominal intensa e contínua (sinal de edema de alças ou ascite);
  • Vômitos persistentes;
  • Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico);
  • Hipotensão postural, tontura ou lipotímia;
  • Hepatomegalia dolorosa (> 2 cm do rebordo costal);
  • Sangramento de mucosas (epistaxe, gengivorragia);
  • Letargia ou irritabilidade;
  • Laboratorial: Aumento progressivo e repentino do Hematócrito simultâneo à queda das plaquetas.

4. Classificação de Risco e Tratamento

Considerações Clínicas

A Regra de Ouro: Proibição de AINEs

É estritamente CONTRAINDICADO o uso de Ácido Acetilsalicílico (AAS) e Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs como Ibuprofeno, Nimesulida, Diclofenaco) em qualquer caso suspeito de dengue. Esses medicamentos promovem disfunção plaquetária e agressão gástrica, aumentando dramaticamente o risco de hemorragias gastrointestinais graves.

O tratamento baseia-se nos grupos de estadiamento do Ministério da Saúde:

Classificação de Risco Dengue
Algoritmo visual de estadiamento e manejo clínico da Dengue (Grupos A, B, C e D).

Grupo A (Sem Sinais de Alarme / Sem Risco)

  • Conduta: Tratamento ambulatorial (casa).
  • Sintomáticos: Dipirona (1g 6/6h) ou Paracetamol (750mg 6/6h).
  • Hidratação: 60 mL/kg/dia via oral (sendo 1/3 com Soro de Reidratação Oral e 2/3 com líquidos caseiros).
  • Retornar ao serviço imediatamente se a febre ceder e surgirem sinais de alarme.

Grupo B (Sem Sinais de Alarme, MAS com Risco Especial)

  • Critérios: Gestantes, idosos (>65 anos), lactentes, portadores de comorbidades crônicas (HAS, DM, asma) ou com risco social.
  • Conduta: Observação em leito até resultado do Hemograma. A hidratação oral é a mesma do Grupo A, mas se o hematócrito estiver alterado, o paciente sobe para o Grupo C.

Grupo C (Com Sinais de Alarme)

  • Conduta: Internação (Leito de enfermaria).
  • Hidratação Venosa (Emergência): Soro Fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato na dose de 10 mL/kg/hora nas primeiras 2 horas.
  • Se houver melhora clínica e queda do hematócrito, reduz-se a infusão gradualmente para manutenção. Reavaliação clínica a cada hora e hematócrito a cada 2 horas.

Grupo D (Dengue Grave / Sinais de Choque)

  • Critérios: Choque manifestado por taquicardia, extremidades frias, pulso filiforme, enchimento capilar > 2 segundos, PA convergente ou sangramento grave (SNC, digestivo).
  • Conduta: Internação em UTI.
  • Hidratação Venosa (Bolus Rápido): Soro Fisiológico 0,9% na dose de 20 mL/kg em 20 minutos. Pode ser repetido até 3 vezes.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Ministério da Saúde, Brasil. Dengue: Diagnóstico e Manejo Clínico – Adulto e Criança (6ª edição). Brasília, 2024.
  • World Health Organization (WHO). Dengue guidelines for diagnosis, treatment, prevention and control. Geneva: WHO, 2009.
  • Simmons, C. P., Farrar, J. J., Nguyen, v. V., & Wills, B. (2012). Dengue. New England Journal of Medicine, 366(15), 1423-1432.