A Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2), codificada no CID-10 E11 (Diabetes mellitus não insulinodependente), é uma doença metabólica crônica de enorme impacto epidemiológico.

Caracteriza-se pela hiperglicemia persistente secundária à resistência periférica à ação da insulina, associada a uma falência progressiva da secreção de insulina pelas células beta pancreáticas. É fortemente ligada à obesidade central, sedentarismo e síndrome metabólica.


1. Critérios Diagnósticos

O diagnóstico precoce muitas vezes ocorre em pacientes assintomáticos. O rastreamento (screening) é indicado para todos os adultos ≥ 35 anos ou em adultos de qualquer idade com sobrepeso (IMC ≥ 25) que apresentem um fator de risco adicional (hipertensão, sedentarismo, história familiar).

O diagnóstico é confirmado se houver DOIS resultados alterados (no mesmo exame ou em coletas diferentes):

  1. Glicemia de Jejum: ≥ 126 mg/dL (após jejum mínimo de 8h).
  2. Hemoglobina Glicada (HbA1c): ≥ 6,5% (método certificado NGSP).
  3. Teste de Tolerância Oral à Glicose (TOTG 75g): Glicemia aos 120 minutos ≥ 200 mg/dL.

Nota: Pacientes que chegam com sintomas clássicos (poliúria, polidipsia, perda de peso imotivada) e uma Glicemia Aleatória ≥ 200 mg/dL têm o diagnóstico fechado imediatamente, não requerendo repetição.

Pré-Diabetes (Risco Aumentado)

  • Glicemia de Jejum: 100 a 125 mg/dL.
  • HbA1c: 5,7 a 6,4%.

2. Metas de Controle Terapêutico

A individualização da meta é mandatória.

  • Adultos jovens, recém-diagnosticados, sem doenças cardiovasculares e com longa expectativa de vida: Meta de HbA1c < 7,0% (frequentemente < 6,5% se tolerado sem hipoglicemia). Glicemia de jejum alvo entre 80-130 mg/dL.
  • Idosos frágeis, com curta expectativa de vida, múltiplas comorbidades ou histórico de hipoglicemia grave: Meta de HbA1c flexibilizada entre 7,5% e 8,5%.

3. Tratamento e Conduta Farmacológica

O manejo baseia-se em modificações intensivas do estilo de vida (perda de > 5% do peso corporal, dieta mediterrânea e > 150 min de exercícios por semana) em todos os estágios.

Considerações Clínicas

A Mudança de Paradigma no Tratamento do DM2:

Até a década passada, o tratamento focava apenas em "baixar o açúcar". Hoje, as diretrizes da ADA (American Diabetes Association) baseiam a escolha das drogas na presença de comorbidades associadas. Para pacientes com insuficiência cardíaca (IC), doença renal crônica (DRC) ou alto risco cardiovascular, os inibidores de SGLT2 e/ou análogos de GLP-1 devem ser introduzidos como primeira linha ou adicionados precocemente, independentemente da meta de HbA1c, devido ao seu profundo impacto na redução de mortalidade.

1. Metformina (Biguanida)

  • Continua sendo a droga de escolha inicial em monoterapia para a maioria dos pacientes sem doença cardiovascular estabelecida.
  • Vantagens: Baixo custo (SUS), não causa hipoglicemia, contribui para perda de peso discreta.
  • Desvantagens/Cuidados: Intolerância gastrointestinal inicial (iniciar em baixa dose junto às refeições) e deficiência de vitamina B12 no longo prazo. Contraindicada se taxa de filtração glomerular (TFG) < 30 mL/min.

2. Inibidores do SGLT2 (-gliflozinas)

  • Exemplos: Dapagliflozina, Empagliflozina.
  • Bloqueiam a reabsorção de glicose no túbulo proximal renal (causam glicosúria).
  • Indicações Ouro: Prevenção de progressão da Doença Renal Crônica e redução drástica de internações por Insuficiência Cardíaca.
  • Alerta: Aumentam fortemente o risco de infecções fúngicas genitais (candidíase).

3. Agonistas do Receptor do GLP-1 (-tidas)

  • Exemplos: Semaglutida, Liraglutida, Dulaglutida.
  • Retardam o esvaziamento gástrico e aumentam a secreção de insulina dependente de glicose.
  • Indicações Ouro: Drogas mais potentes para perda de peso severa e excelente proteção contra infarto agudo do miocárdio e AVC.

4. Inibidores da DPP-4 (-gliptinas)

  • Exemplos: Vildagliptina, Sitagliptina.
  • Seguras, neutras em relação ao peso e de excelência para idosos frágeis (pois não causam hipoglicemia).

5. Sulfonilureias (-glicazida, glimepirida)

  • Drogas antigas que forçam a secreção de insulina.
  • Sendo substituídas paulatinamente devido ao forte risco de ganho de peso e hipoglicemia grave (especialmente em idosos). O SUS fornece Glicazida MR (mais segura que a Glibenclamida).

4. Rastreamento de Complicações (LOA)

Todo paciente recém-diagnosticado (no DM2) já pode ter anos de doença silenciosa. No diagnóstico, é obrigatório solicitar:

  1. Rastreio Renal: Relação Albuminúria/Creatinúria (EAS) e Creatinina sérica para cálculo de TFG.
  2. Rastreio Ocular: Encaminhamento oftalmológico para Mapeamento de Retina (fundo de olho com pupila dilatada) buscando retinopatia diabética.
  3. Rastreio Neural: Teste de sensibilidade com monofilamento de 10g nos pés e palpação de pulsos distais (prevenção do pé diabético).
  4. Rastreio Cardiovascular: Perfil lipídico completo e controle rigoroso da pressão arterial.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • American Diabetes Association (ADA). Standards of Care in Diabetes—2024. Diabetes Care, 47(Supplement_1).
  • Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes. Atualizações contínuas.
  • Buse, J. B., Wexler, D. J., Tsapas, A., et al. (2019). 2019 Update to: Management of Hyperglycemia in Type 2 Diabetes. Diabetes Care, 43(2), 487-493.