O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), codificado sob o CID-10 F41.1, é um distúrbio psiquiátrico de alta prevalência caracterizado por uma preocupação (apreensão) crônica, persistente, excessiva e de difícil controle em relação a múltiplos eventos do cotidiano.

Tem se tornado uma das demandas mais frequentes nas unidades de Atenção Primária, muitas vezes mascarado através de múltiplas queixas de dores físicas crônicas, distúrbios gastrintestinais e insônia primária.


1. Critérios Diagnósticos Clínicos (DSM-5)

A característica definidora do TAG não é a ansiedade restrita a um único evento (ex: medo de uma prova ou de falar em público), mas uma expectativa apreensiva contínua (o paciente sente que um desastre ou problema iminente vai ocorrer a qualquer momento).

Para o diagnóstico, a preocupação excessiva deve estar presente na maioria dos dias por um período mínimo de 6 meses, associada a três ou mais dos seguintes sintomas psicossomáticos:

  1. Inquietação ou sensação de estar “com os nervos à flor da pele”.
  2. Fadiga e cansaço fácil.
  3. Dificuldade de concentração ou sensação de “branco” na mente.
  4. Irritabilidade intensa.
  5. Tensão muscular (frequentemente relatada como dores tensionais na nuca e ombros).
  6. Perturbação do sono (dificuldade de adormecer ou sono insatisfatório).

Fundamental: Os sintomas devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social e ocupacional do paciente.


2. Diagnóstico Diferencial

É mandatório descartar condições clínicas sistêmicas e endócrinas que simulam taquicardia, sudorese e tremores ansiosos antes de fechar o diagnóstico puramente psiquiátrico:

  • Hipertireoidismo (Avaliar TSH).
  • Arritmias cardíacas (Fibrilação atrial, taquicardias supraventriculares).
  • Feocromocitoma (Raro).
  • Uso de substâncias ou abstinência (Cafeína em excesso, cocaína, anfetaminas ou abstinência alcoólica).

Deve-se também diferenciar o TAG da Síndrome do Pânico (F41.0), que é caracterizada por ataques súbitos, discretos e severos de pavor com sensação iminente de morte, durando minutos.


3. Conduta e Tratamento Farmacológico

O tratamento de excelência combina intervenções psicoterapêuticas e medicação de longo prazo neuroprotetora. A Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (TCC) apresenta evidências de eficácia comparáveis à dos medicamentos a longo prazo.

Primeira Linha de Tratamento (Antidepressivos)

Os Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS) ou Duais (ISRN) são a base do tratamento. Eles regulam a neurotransmissão de base. O início da ação é tardio (2 a 4 semanas para o efeito clínico começar).

  • ISRS: Escitalopram (10 a 20mg), Sertralina (50 a 150mg), Paroxetina (excelente poder sedativo para controle de ansiedade grave, mas pior perfil de ganho de peso e disfunção sexual).
  • Duais (ISRSN): Venlafaxina (75 a 225mg) ou Duloxetina (excelente se houver dores crônicas associadas).
  • Regra de introdução: Sempre iniciar com a menor dose possível (ex: Sertralina 25mg) nos primeiros 7 a 10 dias para evitar o efeito paradoxal de piora da ansiedade na primeira semana de uso (ativação serotonérgica gástrica).
Considerações Clínicas

Uso Racional e Perigoso dos Benzodiazepínicos:

O Clonazepam (Rivotril), Alprazolam e Diazepam produzem um alívio imediato e intenso dos sintomas, mas NÃO TRATAM a doença de base e não neuroprotegem. Eles atuam rapidamente aumentando o tônus gabaérgico. Seu uso deve ser estritamente restrito e pontual (no máximo 2 a 4 semanas) nas fases iniciais agudas da doença, servindo de "ponte" até o antidepressivo de primeira linha começar a fazer efeito. O uso contínuo de benzodiazepínicos causa tolerância grave, dependência química severa e está associado a risco de déficit cognitivo irreversível e quedas em idosos.

Tratamentos Alternativos ou Adjuntos

  • Pregabalina: Neuromodulador indicado em casos de intolerância aos antidepressivos ou quando há queixa dominante de tensão e dores musculares. Tem início de ação mais rápido que os ISRS.
  • Buspirona: Agonista parcial de serotonina. Eficaz para sintomas cognitivos de preocupação, com a vantagem de não causar dependência química e não afetar a libido, porém com baixa potência terapêutica.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-5). Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013.
  • Bandelow, B., Michaelis, S., & Wedekind, D. (2017). Treatment of anxiety disorders. Dialogues in Clinical Neuroscience, 19(2), 93-107.
  • Locke, A. B., Kirst, N., & Shultz, C. G. (2015). Diagnosis and Management of Generalized Anxiety Disorder and Panic Disorder in Adults. American Family Physician, 91(9), 617-624.