CID I10: Hipertensão Essencial (Primária)
Manejo clínico da Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) primária (CID I10). Diagnóstico, metas pressóricas e classes de anti-hipertensivos conforme as diretrizes.
A Hipertensão Arterial Sistêmica Essencial ou Primária (classificada pelo código CID-10 I10) é uma condição clínica multifatorial caracterizada pela elevação sustentada dos níveis pressóricos, na ausência de uma causa base secundária identificável.
A HAS é o principal fator de risco modificável para doenças cardiovasculares, incluindo infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e doença renal crônica.
1. Fisiopatologia e Fatores de Risco
A hipertensão primária compreende cerca de 90 a 95% de todos os casos de hipertensão. Sua fisiopatologia é complexa e envolve a interação de fatores genéticos, disfunção endotelial, hiperatividade do sistema nervoso simpático e do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA).
Principais Fatores de Risco Associados:
- Idade avançada e histórico familiar positivo;
- Sobrepeso e Obesidade;
- Dieta rica em sódio (> 2g/dia) e pobre em potássio;
- Sedentarismo;
- Consumo excessivo de álcool e tabagismo.
2. Diagnóstico Clínico
O diagnóstico da HAS não deve ser feito com base em uma única aferição isolada, a menos que a pressão arterial (PA) sistólica seja ≥ 180 mmHg ou a PA diastólica ≥ 110 mmHg.
Critérios Diagnósticos (Diretriz Brasileira de HAS):
- Medida de Consultório: Duas ou mais aferições de PA sistólica ≥ 140 mmHg e/ou PA diastólica ≥ 90 mmHg, em pelo menos duas consultas diferentes.
- MRPA (Monitorização Residencial): Média das aferições ≥ 130 x 85 mmHg.
- MAPA 24h (Padrão Ouro):
- Média de 24 horas: ≥ 130 x 80 mmHg.
- Média da Vigília: ≥ 135 x 85 mmHg.
- Média do Sono: ≥ 120 x 70 mmHg.
3. Classificação e Estratificação de Risco
A PA de consultório para adultos (≥ 18 anos) é classificada em:
- Ótima: < 120 x 80 mmHg
- Normal: 120-129 x 80-84 mmHg
- Pré-hipertensão: 130-139 x 85-89 mmHg
- Hipertensão Estágio 1: 140-159 x 90-99 mmHg
- Hipertensão Estágio 2: 160-179 x 100-109 mmHg
- Hipertensão Estágio 3: ≥ 180 x 110 mmHg
Após confirmar o diagnóstico, é mandatório estratificar o Risco Cardiovascular (RCV) do paciente avaliando presença de Lesão de Órgão-Alvo (LOA), diabetes ou doença cardiovascular (DCV) prévia.
4. Conduta e Metas Terapêuticas
O tratamento da HAS envolve invariavelmente as Modificações do Estilo de Vida (MEV) e a terapia farmacológica quando indicada.
Qual a meta pressórica?
As diretrizes mais recentes (após o estudo SPRINT) recomendam metas mais rigorosas. Para pacientes de alto risco cardiovascular, a meta é < 130 x 80 mmHg. Para risco baixo/moderado, a meta geral continua sendo < 140 x 90 mmHg. Em idosos muito frágeis, individualiza-se a meta (geralmente entre 130-139 mmHg sistólica) para evitar hipotensão, quedas e hipoperfusão de órgãos vitais.
Tratamento Não Farmacológico (MEV)
- Redução da ingestão de sódio (meta ideal: 2g de sódio ou 5g de sal por dia);
- Dieta DASH (rica em frutas, vegetais, grãos integrais, laticínios magros);
- Perda de peso (cada redução de 1 kg resulta em queda de ~1 mmHg na PA);
- Exercício aeróbico regular (150 min/semana).
Tratamento Farmacológico
As diretrizes recomendam o início com monoterapia (para Estágio 1 com RCV baixo) ou terapia combinada em baixas doses (para Estágio 2, 3 ou Estágio 1 com RCV alto).
Principais Classes de Primeira Linha:
- Diuréticos Tiazídicos: (Ex: Hidroclorotiazida, Clortalidona, Indapamida). Excelentes em idosos e afrodescendentes.
- Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (iECA): (Ex: Enalapril, Ramipril, Captopril). Proteção renal e cardíaca. Podem causar tosse seca.
- Bloqueadores do Receptor de Angiotensina (BRA): (Ex: Losartana, Valsartana). Alternativa aos iECA com menos efeitos adversos. Atenção: Não se deve associar iECA e BRA juntos.
- Bloqueadores dos Canais de Cálcio (BCC): (Ex: Anlodipino, Nifedipino). Potentes vasodilatadores periféricos. Principal efeito adverso: edema de membros inferiores.
5. Rastreamento de LOA (Exames Iniciais)
Todo paciente recém-diagnosticado deve realizar exames básicos para buscar lesões silenciosas:
- Glicemia de jejum e Hemoglobina Glicada (HbA1c);
- Perfil Lipídico completo;
- Creatinina Sérica e estimativa do ritmo de filtração glomerular (TFG);
- Urina Tipo I e relação Albuminúria/Creatinúria (EAS);
- Potássio Sérico e Eletrocardiograma (ECG) de repouso.
Referências Científicas
- Barroso, W. K. S., Rodrigues, C. I. S., Bortolotto, L. A., et al. (2021). Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 116(3), 516-658.
- Whelton, P. K., Carey, R. M., Aronow, W. S., et al. (2018). 2017 ACC/AHA/AAPA/ABC/ACPM/AGS/APhA/ASH/ASPC/NMA/PCNA Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults. Journal of the American College of Cardiology, 71(19), e127-e248.
- Williams, B., Mancia, G., Spiering, W., et al. (2018). 2018 ESC/ESH Guidelines for the management of arterial hypertension. European Heart Journal, 39(33), 3021-3104.