A nasofaringite aguda, popularmente conhecida como resfriado comum (classificada sob o código CID-10 J00), é a infecção viral mais frequente do trato respiratório superior em humanos. Trata-se de uma condição autolimitada, caracterizada por inflamação aguda da mucosa nasal e da faringe.

Apesar de sua benignidade na grande maioria dos casos, o resfriado comum representa um grande impacto socioeconômico devido ao absenteísmo escolar e laboral, além de ser uma das principais causas de prescrição inadequada de antibióticos na atenção primária.


1. Etiologia e Fisiopatologia

O resfriado comum é uma síndrome clínica causada por diversos tipos de vírus respiratórios. O principal agente etiológico isolado é o Rinovírus (responsável por 30% a 50% dos casos). Outros patógenos frequentes incluem:

  • Coronavírus (cepas sazonais clássicas: 229E, OC43, NL63, HKU1);
  • Vírus Sincicial Respiratório (VSR);
  • Adenovírus (geralmente associado a quadros com faringite mais exuberante ou conjuntivite);
  • Enterovírus (Coxsackievírus e Echovírus);
  • Vírus Influenza e Parainfluenza (quadros iniciais).

Transmissão

A transmissão ocorre principalmente por:

  1. Contato direto: Transferência de secreções infectadas através das mãos para as mucosas conjuntival ou nasal.
  2. Gotículas: Aerossóis de partículas grandes expelidos durante a tosse ou espirro.
  3. Fômites: Contato com superfícies contaminadas (onde o Rinovírus pode sobreviver por várias horas).

2. Quadro Clínico e Sintomatologia

Os sintomas tipicamente aparecem de 1 a 3 dias após a exposição viral (período de incubação) e apresentam pico de intensidade entre o 2º e o 4º dia, com resolução espontânea em 7 a 10 dias. Em fumantes ou pacientes asmáticos, os sintomas podem persistir por até duas semanas.

Sintomas Clássicos:

  • Pródromo: Sensação de irritação ou prurido na garganta (geralmente o primeiro sintoma);
  • Coriza: Inicialmente aquosa e hialina, podendo tornar-se espessa e muco-purulenta (amarelada ou esverdeada) na evolução natural da doença, o que não indica infecção bacteriana secundária;
  • Obstrução nasal e espirros;
  • Tosse: Geralmente seca, podendo tornar-se produtiva devido ao gotejamento pós-nasal;
  • Sintomas sistêmicos leves: Febre baixa ou ausente (febre alta é comum em crianças pequenas, mas rara em adultos), cefaleia leve, adinamia e mialgia discreta.

3. Diagnóstico e Diagnóstico Diferencial

O diagnóstico da nasofaringite aguda é essencialmente clínico, baseado na anamnese e no exame físico detalhado. Exames laboratoriais (como hemograma) ou de imagem (como radiografia de seios da face) não são indicados rotineiramente e devem ser reservados para suspeitas de complicações bacterianas.

Diagnósticos Diferenciais a Considerar:

  • Rinite Alérgica: Ausência de dor de garganta ou sintomas sistêmicos; presença de prurido nasal/ocular intenso, espirros em salva e eosinofilia na mucosa nasal.
  • Gripe (Influenza): Início abrupto com febre alta (geralmente > 38°C), mialgia intensa, prostração marcante e tosse seca persistente.
  • Faringoamigdalite Bacteriana (ex: S. pyogenes): Presença de exsudato amigdaliano, petéquias no palato, adenopatia cervical anterior dolorosa e ausência de sintomas nasais (tosse, coriza ou obstrução nasal).
  • Sinusite Bacteriana Aguda: Suspeitada quando os sintomas respiratórios superiores duram mais de 10 dias sem melhora, ou apresentam piora súbita (“dupla piora”) após 5-6 dias de evolução.

4. Conduta e Tratamento de Suporte

Não existe tratamento antiviral específico aprovado para o resfriado comum. O manejo baseia-se no alívio sintomático e na orientação do paciente ou responsáveis.

Considerações Clínicas

Uso Racional de Antibióticos:

Antibióticos não possuem eficácia contra infecções virais e seu uso indiscriminado induz resistência bacteriana, além de expor o paciente a efeitos adversos desnecessários (como diarreia e reações alérgicas). Não devem ser prescritos para o CID J00.

Medidas Não Farmacológicas:

  • Hidratação abundante: Auxilia na fluidificação das secreções respiratórias.
  • Higienização nasal com Solução Fisiológica 0,9%: Deve ser realizada várias vezes ao dia (jatos ou lavagem de alto volume) para reduzir a obstrução mecânica e remover mediadores inflamatórios.
  • Repouso relativo: Conforme a tolerância do paciente.

Tratamento Farmacológico Sintomático:

  • Analgésicos e Antitérmicos: Paracetamol (500mg a 1g a cada 6h, máx. 4g/dia) ou Dipirona (500mg a 1g a cada 6h) para controle da cefaleia, dor de garganta ou febre.
  • Descongestionantes Nasais:
    • Tópicos (ex: Oximetazolina 0,05%): Uso restrito a no máximo 3 a 5 dias consecutivos para evitar rinite medicamentosa (efeito rebote). Contraindicado para crianças pequenas.
    • Sistêmicos (ex: Pseudoefedrina): Devem ser evitados em pacientes hipertensos, coronariopatas ou com glaucoma.
  • Anti-histamínicos de Primeira Geração (ex: Dexclorfeniramina): Podem reduzir a coriza e os espirros devido ao seu efeito anticolinérgico, mas causam sonolência.
  • Antitussígenos: Podem ser considerados se a tosse seca perturbar o sono, devendo-se preferir fitoterápicos ou mel (para maiores de 1 ano) e hidratação.

5. Sinais de Alerta e Complicações

O paciente ou responsável deve ser orientado a buscar reavaliação médica imediata na presença dos seguintes sintomas:

  • Febre persistente por mais de 3 dias ou rebote após período afebril;
  • Dispneia, taquipneia ou sibilância;
  • Dor torácica ou dor facial unilateral intensa;
  • Sonolência excessiva, irritabilidade presumida (em lactentes) ou confusão mental;
  • Piora clínica progressiva após o 5º ou 7º dia de evolução.

Complicações Secundárias Comuns:

  • Otite Média Aguda (especialmente em crianças);
  • Sinusite bacteriana secundária;
  • Exacerbação de Asma ou DPOC;
  • Pneumonia bacteriana.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Allan, G. M., & Arroll, B. (2014). Prevention and treatment of the common cold: making sense of the evidence. CMAJ, 186(3), 190-199. doi: 10.1503/cmaj.121442.
  • Eccles, R. (2005). Understanding the symptoms of the common cold and influenza. The Lancet Infectious Diseases, 5(11), 718-725. doi: 10.1016/S1473-3099(05)70270-X.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes para o uso de antimicrobianos na atenção primária à saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
  • Pappas, D. E. (2020). The Common Cold. In: Principles and Practice of Pediatric Infectious Diseases, 5th Edition. Elsevier.