A amigdalite aguda (ou faringoamigdalite aguda), classificada sob o código CID-10 J03, é um processo inflamatório infeccioso das tonsilas palatinas e da faringe posterior. É uma das queixas mais comuns nos prontos-socorros e na atenção primária.

A grande maioria dos casos em adultos e crianças menores de 3 anos tem etiologia viral e curso autolimitado. O principal desafio clínico é a correta identificação da faringoamigdalite bacteriana estreptocócica, visando prevenir complicações supurativas e febre reumática.


1. Etiologia e Fisiopatologia

A etiologia das amigdalites varia fortemente com a faixa etária.

  • Virais (70 a 85% dos casos): Rinovírus, Adenovírus, Coronavírus, vírus Epstein-Barr (mononucleose infecciosa), Coxsackievírus (herpangina) e Citomegalovírus.
  • Bacterianas (15 a 30% dos casos pediátricos, 5 a 10% dos casos adultos): O agente mais importante é o Streptococcus pyogenes (Estreptococo β-hemolítico do Grupo A - EBGA). Outras bactérias menos comuns incluem Streptococcus dos grupos C e G, Mycoplasma pneumoniae e Neisseria gonorrhoeae.

2. Quadro Clínico e Sintomatologia

A apresentação clínica ajuda a diferenciar a etiologia viral da bacteriana, embora haja considerável sobreposição.

Características sugestivas de infecção Viral:

  • Início gradual;
  • Presença de sintomas catarrais: coriza, congestão nasal, tosse;
  • Rouquidão, conjuntivite, diarreia ou aftas na cavidade oral;
  • Febre baixa ou ausente.

Características sugestivas de infecção Bacteriana (EBGA):

  • Início súbito de odinofagia intensa;
  • Febre alta (> 38,5°C);
  • Ausência de tosse ou coriza;
  • Tonsilas palatinas hiperemiadas, aumentadas, frequentemente com exsudato purulento;
  • Petéquias no palato;
  • Linfadenopatia cervical anterior dolorosa.

3. Diagnóstico e Critérios de Centor

Amigdalite Bacteriana
Comparação da orofaringe na amigdalite viral versus bacteriana (exsudativa).

O padrão-ouro para o diagnóstico de faringite estreptocócica é a cultura de orofaringe, porém o Teste Rápido de Pesquisa de Antígeno (TRPA) tem alta especificidade e permite decisão imediata.

Na ausência de testes rápidos, utilizam-se critérios clínicos para estimar a probabilidade de infecção bacteriana e guiar a conduta empírica. Os Critérios de Centor Modificados (Escore de McIsaac) são os mais recomendados:

  1. Febre (> 38°C) = +1 ponto
  2. Ausência de tosse = +1 ponto
  3. Adenopatia cervical anterior dolorosa = +1 ponto
  4. Exsudato ou inchaço amigdaliano = +1 ponto
  5. Idade:
    • 3 a 14 anos = +1 ponto
    • 15 a 44 anos = 0 pontos
    • ≥ 45 anos = -1 ponto

Interpretação da Pontuação:

  • 0 a 1 ponto: Probabilidade baixa de infecção estreptocócica. Tratamento apenas sintomático. Não há necessidade de pesquisa ou antibióticos.
  • 2 a 3 pontos: Realizar Teste Rápido (se disponível). Antibiótico apenas se TRPA positivo.
  • 4 a 5 pontos: Alta probabilidade. O tratamento empírico com antibióticos é indicado em vários protocolos locais (ou TRPA se disponível).

4. Conduta e Tratamento

O tratamento depende essencialmente da suspeita etiológica. O manejo sintomático é indicado para todos os pacientes.

Considerações Clínicas

Atenção com a Penicilina:

O Streptococcus pyogenes não apresenta resistência documentada à penicilina em nível global. Portanto, penicilinas e amoxicilina continuam sendo os tratamentos de primeira linha para faringoamigdalite bacteriana, devendo os macrolídeos (como Azitromicina) serem reservados estritamente para pacientes alérgicos a penicilina, devido às altas taxas crescentes de resistência aos macrolídeos.

Tratamento Sintomático (Para todas as etiologias)

  • Analgésicos/Antitérmicos: Dipirona (1g 6/6h) ou Paracetamol (750mg 6/6h).
  • AINEs: Ibuprofeno (400mg 8/8h) para controle inflamatório por curto período (3-5 dias).
  • Medidas locais: Gargarejos com água morna e sal, pastilhas anestésicas, e hidratação adequada.

Tratamento Antibiótico (Para infecção confirmada ou altamente provável por EBGA)

  • Opção 1 (Ouro): Penicilina G Benzatina, 1.200.000 UI, Intramuscular, dose única (para > 27kg).
  • Opção 2: Amoxicilina, 500mg, via oral, 8/8h, por 10 dias.
  • Pacientes alérgicos a Penicilina:
    • Azitromicina, 500mg/dia por 3 a 5 dias.
    • Clindamicina, 300mg 8/8h por 10 dias.
    • Cefalosporinas de 1ª geração (ex: Cefalexina) podem ser usadas caso a alergia não seja anafilática (mediada por IgE).

5. Sinais de Alerta e Complicações

O paciente deve retornar imediatamente se apresentar sinais de complicação supurativa (abcesso):

  • Assimetria periamigdaliana ou desvio da úvula;
  • Trismo (dificuldade de abrir a boca);
  • Sialorreia (babar) ou disfagia acentuada (dificuldade de engolir a própria saliva);
  • Dificuldade respiratória ou estridor.

Complicações Não Supurativas (Pós-Estreptocócicas): A erradicação do S. pyogenes dentro dos primeiros 9 dias do início dos sintomas previne ativamente a ocorrência de Febre Reumática. O tratamento com antibióticos não reduz significativamente o risco de Glomerulonefrite Difusa Aguda (GNDA).


Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Shulman, S. T., Bisno, A. L., Clegg, H. W., et al. (2012). Clinical Practice Guideline for the Diagnosis and Management of Group A Streptococcal Pharyngitis: 2012 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, 55(10), e86-e102.
  • Fine, A. M., Nizet, V., & Mandl, K. D. (2012). Large-scale validation of the Centor and McIsaac scores to predict group A streptococcal pharyngitis. Archives of Internal Medicine, 172(11), 847-852.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes para o uso de antimicrobianos na atenção primária à saúde. Brasília, 2021.