A Bronquite Aguda, descrita no CID-10 J20, é a inflamação autolimitada dos brônquios (as principais vias aéreas pulmonares inferiores), caracterizada predominantemente por tosse aguda com ou sem expectoração.

É uma das doenças ambulatoriais mais comuns do mundo e, de forma semelhante ao resfriado comum, é maciçamente provocada por vírus. Apesar de ser autolimitada, a tosse associada à bronquite aguda pode ser persistente e debilitante, muitas vezes induzindo os pacientes a solicitarem tratamentos inapropriados.


1. Fisiopatologia e Agentes Etiológicos

A bronquite aguda inicia-se com a inoculação de um patógeno respiratório na mucosa brônquica. Segue-se uma resposta inflamatória robusta mediada por citocinas, hipertrofia transitória das glândulas mucosas e infiltração leucocitária, gerando produção excessiva de muco e descamação epitelial. A reatividade brônquica (espasmo) pode ocorrer em resposta ao processo inflamatório.

  • Vírus (> 90% dos casos): Os principais vírus envolvidos são o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), Adenovírus, Influenza A e B, Parainfluenza, Rinovírus e Coronavírus humano.
  • Bactérias (< 10% dos casos): As chamadas “bactérias atípicas” como Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae e Bordetella pertussis (causadora da coqueluche, que pode acometer adultos com imunidade vacinal decrescente). Bactérias típicas como S. pneumoniae ou H. influenzae raramente causam bronquite aguda em adultos saudáveis, sendo agentes comuns apenas em exacerbações de DPOC.

2. Manifestações Clínicas e Curso da Doença

  • A Tosse: É o sintoma cardinal. Ocorre inicialmente como uma tosse seca e irritativa que frequentemente se torna produtiva com o passar dos dias. A tosse da bronquite aguda dura, em média, de 10 a 20 dias (e pode estender-se por até 4 semanas).
  • Expectoração Purulenta: A produção de escarro amarelado ou esverdeado é muito comum na evolução natural da bronquite viral aguda e ocorre pela presença de peroxidases dos neutrófilos, NÃO sendo um indicativo de infecção bacteriana secundária.
  • Sintomas Acompanhantes: Nos primeiros 3 a 5 dias, o paciente pode manifestar febre baixa, mialgia, cefaleia e sintomas nasais (pródromo do resfriado). A febre persistente e alta após esse período é rara e exige reavaliação.
  • Chiado e Sibilos: A hiperresponsividade brônquica temporária pode causar sibilância audível e leve aperto no peito, que melhoram com o final da infecção.

3. Diagnóstico e Exclusão de Pneumonia

O diagnóstico da bronquite aguda baseia-se puramente na avaliação clínica. O grande desafio é a diferenciação entre bronquite aguda e pneumonia comunitária precoce.

Exames de imagem (Radiografia de Tórax) NÃO são rotineiramente recomendados. Estão estritamente indicados se o paciente apresentar algum dos seguintes sinais vitais anormais ou achados sugestivos de consolidação pulmonar (que indicam pneumonia):

  • Frequência cardíaca > 100 bpm;
  • Frequência respiratória > 24 irpm;
  • Temperatura axilar > 38°C;
  • Saturação de oxigênio < 95% em ar ambiente;
  • Exame do tórax com achados focais: egofonia, frêmito toracovocal aumentado ou macicez à percussão.

Pacientes idosos (especialmente > 75 anos) ou portadores de demência frequentemente não manifestam sinais clássicos (não apresentam febre e não conseguem descrever a tosse); neles, o limiar para solicitar RX de tórax e avaliar pneumonia deve ser muito menor.


4. Conduta Terapêutica

Como se trata de uma infecção quase exclusivamente viral, o tratamento deve visar o alívio dos sintomas até a resolução espontânea da inflamação. O paciente deve ser informado de que a tosse costuma durar cerca de 3 semanas.

Considerações Clínicas

Uso Racional de Antibióticos:

A prescrição de antibióticos (como Amoxicilina ou Azitromicina) para bronquite aguda em indivíduos imunocompetentes NÃO É RECOMENDADA pelas diretrizes mundiais. Evidências consistentes mostram que antibióticos não previnem pneumonia secundária, reduzem a duração da tosse em, no máximo, meio dia, e expõem o paciente a efeitos adversos significativos, além do grave risco de seleção de bactérias multirresistentes em nível comunitário.

Tratamento Sintomático e Suporte

  • Analgésicos/Antitérmicos: Paracetamol ou Dipirona para alívio de dor de cabeça, febre baixa ou dor muscular torácica causada pela tosse excessiva.
  • Broncodilatadores (Beta-2 Agonistas): (Ex: Salbutamol aerossol). O uso de broncodilatadores de forma rotineira é desencorajado. Eles devem ser restritos e prescritos apenas se houver evidência clínica de broncoespasmo acentuado (sibilos audíveis e dispneia).
  • Antitussígenos centrais (ex: Dextrometorfano): Possuem benefício marginal e são mal tolerados, mas podem ser considerados à noite em casos em que a tosse seca seja severa o bastante para privar o paciente de sono. Estão contraindicados na tosse muito secretiva, sob risco de retenção de secreções.
  • Remédios caseiros: O uso de Mel (1/2 a 1 colher de chá à noite) mostrou eficácia comparável a xaropes comerciais na redução da severidade da tosse. (Nota: o mel é estritamente contraindicado para crianças menores de 1 ano devido ao risco de botulismo).

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Wenzel, R. P., & Fowler, A. A. (2006). Acute bronchitis. New England Journal of Medicine, 355(20), 2125-2130.
  • Smith, S. M., Fahey, T., Smucny, J., & Becker, L. A. (2017). Antibiotics for acute bronchitis. Cochrane Database of Systematic Reviews, (6).
  • Kinkade, S., & Long, N. A. (2016). Acute Bronchitis. American Family Physician, 94(7), 560-565.