A Asma, codificada no CID-10 J45, é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas caracterizada por hiperresponsividade brônquica e limitação variável do fluxo aéreo. Na emergência, apresenta-se frequentemente sob a forma de crise de broncoespasmo (asma aguda grave).

A crise asmática é uma urgência médica que pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória fatal se não for prontamente reconhecida e revertida. O manejo não foca na cura, mas na reversão imediata da constrição muscular lisa brônquica e na inibição da cascata inflamatória aguda.


1. Avaliação Inicial e Classificação da Crise

A primeira etapa no PA é determinar a gravidade do episódio para definir o vigor da terapia.

  • Crise Leve a Moderada: Paciente consegue falar frases completas, não usa musculatura acessória proeminentemente, frequência respiratória < 30 irpm, frequência cardíaca < 120 bpm, Saturação de O2 > 90% em ar ambiente.
  • Crise Grave: Fala apenas palavras isoladas, senta-se curvado para frente (posição de tripé), uso evidente de musculatura acessória (tiragem intercostal/fúrcula), FR > 30 irpm, FC > 120 bpm, Saturação < 90%.
  • Muito Grave (Risco Iminente de Morte): Rebaixamento do nível de consciência, confusão mental, tórax silencioso (não há fluxo de ar suficiente nem para gerar sibilos), bradicardia e respiração paradoxal.

2. Tratamento na Emergência

O tratamento da crise de asma baseia-se em broncodilatação intensa e corticoterapia sistêmica precoce. A oferta de Oxigênio (se Saturação < 92-94%) é o passo zero.

Considerações Clínicas

A Queda da Aminofilina e a Ascensão do Spray:

A Aminofilina intravenosa, muito usada no passado, está proscrita do tratamento padrão da crise de asma devido ao seu estreito índice terapêutico, alto risco de arritmias fatais e eficácia inferior aos beta-2 agonistas inalatórios. Outra mudança crucial: o uso de Aerossol Dosimetrado ("Bombinha") com espaçador é hoje preferível e mais eficaz do que a nebulização convencional na crise aguda, pois deposita a medicação diretamente no pulmão de forma mais rápida e com menos efeitos colaterais sistêmicos.

1. Broncodilatadores de Ação Curta (SABA)

  • Salbutamol (Aerossol 100mcg/jato): Droga de resgate universal.
  • Dose: 4 a 10 jatos com espaçador, a cada 20 minutos na primeira hora.

2. Anticolinérgicos de Ação Curta (SAMA)

  • Brometo de Ipratrópio (Aerossol 20mcg/jato): Indicado para associação ao Salbutamol nas crises graves (potencializa a broncodilatação e reduz internações).
  • Dose: 4 a 8 jatos, junto com o Salbutamol, a cada 20 minutos na primeira hora.

3. Corticoterapia Sistêmica

Deve ser iniciada na primeira hora de atendimento para todas as crises (exceto as muito leves que revertem imediatamente com 1 dose de Salbutamol). O corticoide previne recaídas e reduz o processo inflamatório base que gerou a crise.

  • Ação: Início de ação em cerca de 4 a 6 horas.
  • Via Oral: Prednisona 40 a 50 mg (adultos) em dose única. A eficácia da via oral é rigorosamente equivalente à via intravenosa em pacientes que conseguem engolir.
  • Via Intravenosa: Hidrocortisona (200 mg) ou Metilprednisolona (40 a 60 mg) reservada para pacientes vomitando, intubados ou em crise muito grave.

4. Sulfato de Magnésio Intravenoso

  • Reservado para pacientes com crise grave que não respondem satisfatoriamente ao Salbutamol e Ipratrópio após a primeira hora.
  • Ação: Relaxamento do músculo liso brônquico antagonizando o cálcio. (Dose típica: 2g IV em 20 minutos).

3. Alta e Receituário

O erro mais comum na alta do PS é prescrever apenas o Salbutamol (“usar se tiver falta de ar”) sem tratar a inflamação de base.

Para a alta segura, o paciente deve receber:

  1. Corticoide Oral: Prednisona (40-50mg/dia) por 5 a 7 dias, para evitar recaída inflamatória (não necessita desmame para este período curto).
  2. Broncodilatador de Resgate: Salbutamol spray (para uso conforme necessidade).
  3. Encaminhamento/Ajuste de Tratamento Controlador: Iniciar ou ajustar um Corticoide Inalatório (ex: Budesonida, Fluticasona) para uso contínuo ambulatorial.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention. (Atualização Anual).
  • British Thoracic Society (BTS) / Scottish Intercollegiate Guidelines Network (SIGN). British guideline on the management of asthma. Thorax, 2014.
  • Camargo, C. A., Spooner, C. H., & Rowe, B. H. (2003). Continuous versus intermittent beta-agonists for acute asthma. Cochrane Database of Systematic Reviews.