A Dorsalgia (popularmente conhecida como dor nas costas), codificada como CID-10 M54, é um termo genérico que engloba quadros dolorosos localizados na coluna vertebral e tecidos adjacentes. Quando acomete a região inferior das costas (abaixo do rebordo costal e acima da prega glútea), é especificamente chamada de lombalgia (CID M54.5).

Trata-se de uma das principais causas de anos vividos com incapacidade globalmente e uma das maiores razões para consultas médicas na atenção primária e emergência ortopédica. A grande maioria dos casos (cerca de 85% a 90%) é de natureza “mecânica” inespecífica e apresenta curso benigno, resolvendo-se em algumas semanas.


1. Classificação Temporal e Etiologia

A abordagem da dorsalgia depende substancialmente do tempo de evolução:

  • Aguda: Duração inferior a 4 semanas. Geralmente devido a distensões musculares, entorses ligamentares ou disfunção articular aguda após estresse mecânico.
  • Subaguda: Duração entre 4 e 12 semanas.
  • Crônica: Duração superior a 12 semanas. Associa-se a síndromes dolorosas complexas, fatores psicossociais (estresse, insatisfação no trabalho) e alterações degenerativas articulares persistentes (osteoartrite).

Causas Mecânicas Específicas (10 a 15% dos casos):

  • Hérnia de disco lombar com compressão de raiz nervosa (Ciatica - radiculopatia).
  • Estenose do canal vertebral (claudicação neurogênica).
  • Espondilolistese e fraturas de compressão osteoporóticas.

2. Diagnóstico e Red Flags (Sinais de Alarme)

A principal tarefa do médico na primeira consulta é excluir etiologias graves ou sistêmicas (como tumores, infecções, síndromes neurológicas graves ou doenças reumatológicas), que correspondem a menos de 1% a 2% das dorsalgias.

Para isso, utiliza-se a pesquisa das “Red Flags” (Sinais de Alarme) na anamnese e exame físico:

  1. Suspeita de Câncer: Idade < 20 ou > 50 anos, histórico prévio de câncer, perda de peso inexplicada, dor noturna ou que não alivia com repouso.
  2. Suspeita de Infecção (Osteomielite/Espondilodiscite): Febre, uso recente de drogas intravenosas, infecção cutânea/urinária recente, imunossupressão ou uso crônico de corticosteroides.
  3. Suspeita de Fratura: Trauma significativo (ou trauma leve em pacientes idosos osteoporóticos), uso crônico de corticoides.
  4. Síndrome da Cauda Equina (Emergência Neurológica): Anestesia em sela (dormência na região perineal e glútea), retenção urinária súbita, incontinência fecal e fraqueza motora progressiva nos membros inferiores.
Considerações Clínicas

Uso Racional de Exames de Imagem:

Se o paciente apresenta lombalgia mecânica aguda SEM nenhum Sinal de Alarme (Red Flag), a realização de Radiografias, Tomografia ou Ressonância Magnética nas primeiras 4 a 6 semanas é formalmente CONTRAINDICADA. Exames precoces desnecessários aumentam o custo e expõem o paciente a radiação, além de revelarem frequentemente alterações degenerativas incidentais que não são a causa da dor, gerando ansiedade e procedimentos invasivos inapropriados.


3. Exame Físico

  • Inspeção e Palpação: Buscar deformidades, espasmos musculares e pontos gatilhos.
  • Teste de Elevação da Perna Reta (Sinal de Lasègue): Com o paciente deitado, a elevação passiva do membro inferior estendido reproduz dor lancinante que irradia abaixo do joelho (positivo para radiculopatia L5-S1) geralmente entre 30 e 70 graus de elevação.
Sinal de Lasègue
Pesquisa do Sinal de Lasègue: a dor radicular típica ocorre entre 30º e 70º de elevação.
  • Exame Neurológico: Avaliar reflexos patelares (L4) e aquileus (S1), sensibilidade táctil nos dermátomos e força motora (ex: andar nas pontas dos pés para S1, andar nos calcanhares para L5).

4. Conduta e Tratamento

O manejo da lombalgia aguda inespecífica é essencialmente conservador e focado na reabilitação precoce.

Tratamento Não Farmacológico

  • Manutenção da Atividade: Evitar repouso absoluto no leito. O repouso prolongado leva ao descondicionamento muscular e prolonga a recuperação. Recomenda-se manter as atividades diárias conforme tolerado.
  • Calor Local: O uso de compressas quentes na região lombar alivia os espasmos musculares.
  • Fisioterapia e Exercícios: Para lombalgia subaguda e crônica, exercícios de estabilização do core e controle motor são a intervenção mais eficaz.

Tratamento Farmacológico

  • AINEs (Anti-inflamatórios Não Esteroidais): Primeira linha terapêutica para dor aguda. Ex: Ibuprofeno, Naproxeno ou Cetoprofeno, preferencialmente em ciclos curtos de 3 a 7 dias, para evitar toxicidade gástrica e renal.
  • Analgésicos Simples: Dipirona ou Paracetamol (este último mostrou ter eficácia baixa em estudos recentes para lombalgia, mas ainda é uma opção para dor leve ou quando AINEs são contraindicados).
  • Relaxantes Musculares: Ciclobenzaprina ou Tizanidina podem ser adicionados por 3-5 dias caso o espasmo muscular seja proeminente. (Atenção ao risco de sedação, especialmente em idosos).
  • Opioides: Devem ser evitados. Reservados estritamente para dor lancinante não controlada com outras medidas e por curtíssimo prazo (ex: Tramadol).

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Chou, R., Qaseem, A., Snow, V., et al. (2007). Diagnosis and Treatment of Low Back Pain: A Joint Clinical Practice Guideline from the American College of Physicians and the American Pain Society. Annals of Internal Medicine, 147(7), 478-491.
  • Maher, C., Underwood, M., & Buchbinder, R. (2017). Non-specific low back pain. The Lancet, 389(10070), 736-747.
  • Foster, N. E., Anema, J. R., Cherkin, D., et al. (2018). Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet, 391(10137), 2368-2383.