A Infecção do Trato Urinário (ITU), codificada genericamente no CID-10 N39.0 (quando o sítio exato ou agente não é especificado na codificação primária), é uma das infecções bacterianas mais comuns na prática médica, afetando predominantemente mulheres devido à anatomia uretral curta.

A ITU abrange um espectro clínico que vai desde a cistite aguda não complicada (infecção restrita à bexiga) até a pielonefrite aguda (infecção do parênquima renal), exigindo estratégias de tratamento fundamentalmente distintas.


1. Fisiopatologia e Agentes Etiológicos

A via de infecção mais comum é a ascendente, onde bactérias da flora intestinal colonizam o períneo, ascendem pela uretra e atingem a bexiga.

A Escherichia coli uropatogênica (UPEC) é responsável por 75% a 90% dos episódios de ITU não complicada. Outros agentes incluem:

  • Staphylococcus saprophyticus (5 a 15%, frequentemente em mulheres jovens sexualmente ativas).
  • Klebsiella pneumoniae.
  • Proteus mirabilis (associado a cálculos de estruvita e urina alcalina).
  • Enterococcus faecalis (mais associado a manipulação instrumental ou cateter).

2. Apresentação Clínica

Cistite Aguda Não Complicada

  • Sintomas Clássicos: Disúria (ardência ou dor ao urinar), polaciúria (aumento da frequência), urgência miccional e dor suprapúbica.
  • Hematúria pode ocorrer em até 30% dos casos e não indica necessariamente maior gravidade.
  • Não cursa com febre alta ou comprometimento sistêmico severo. A presença de sintomas clássicos na ausência de secreção vaginal tem Valor Preditivo Positivo superior a 90%.

Pielonefrite Aguda (Infecção de Trato Urinário Alto)

  • Sintomas Sistêmicos: Febre alta (frequentemente > 38°C), calafrios, fadiga intensa e vômitos.
  • Dor lombar: Sinal de Giordano positivo (dor à punho-percussão na loja renal).
  • Pode ou não ser precedida ou acompanhada pelos sintomas baixos da cistite.

3. Diagnóstico Laboratorial

Para a cistite aguda não complicada em mulheres jovens, o diagnóstico é primariamente clínico. Exames laboratoriais não são estritamente necessários para iniciar a terapia empírica.

  • EAS (Urina Tipo I): Apresenta leucocitúria (piúria), hematúria microscópica e bacteriúria. A presença de Nitrito positivo é altamente específica para Enterobactérias (como E. coli), mas a ausência não descarta ITU.
  • Urocultura com Antibiograma: Padrão-ouro. O limite clássico é o crescimento ≥ $10^5$ UFC/mL.
    • Quando solicitar? Sempre em casos de Pielonefrite, ITU de repetição, gestantes, homens, crianças, pacientes institucionalizados, imunossuprimidos ou falha terapêutica prévia.

4. Conduta e Tratamento Empírico

O tratamento da ITU é empírico no primeiro atendimento, baseando-se no perfil de resistência bacteriana local.

Considerações Clínicas

Bacteriúria Assintomática:

A presença de bactérias na urina sem sinais e sintomas clínicos (bacteriúria assintomática) não deve ser tratada na população em geral, incluindo idosos e pacientes com cateter de demora. O uso desnecessário de antibióticos seleciona cepas resistentes. As únicas exceções formais para rastrear e tratar bacteriúria assintomática são: Gestantes (para prevenção de prematuridade e pielonefrite) e pacientes que serão submetidos a procedimentos urológicos com sangramento mucoso.

Tratamento da Cistite Aguda Não Complicada (Mulheres)

Deve-se priorizar agentes que se concentram exclusivamente nas vias urinárias e que causam baixo impacto na microbiota intestinal/vaginal, evitando a resistência bacteriana periférica.

  • 1ª Linha (Fosfomicina trometamol): 3g, via oral, dose única. (Praticidade extrema e baixa resistência bacteriana).
  • 1ª Linha (Nitrofurantoína): 100mg, via oral, de 6/6h (ou formulação macocristais 12/12h) por 5 dias. Evitar no final da gestação ou se clearance de creatinina < 30 mL/min.
  • Alternativas: Cefalexina (500mg 6/6h por 5-7 dias) ou Amoxicilina/Clavulanato.
  • As Fluorquinolonas (ex: Ciprofloxacino, Levofloxacino) não devem ser mais usadas como primeira linha para cistite simples devido aos seus graves efeitos colaterais sistêmicos e altos níveis de resistência induzida.

Tratamento da Pielonefrite Aguda Não Complicada (Ambulatorial)

Exige cobertura sistêmica vigorosa com alcance tecidual renal.

  • Ciprofloxacino: 500mg, via oral, 12/12h por 7 dias. (Se resistência local à fluoroquinolona < 10%).
  • Levofloxacino: 750mg, via oral, 1 vez ao dia por 5 a 7 dias.
  • Se houver instabilidade hemodinâmica, incapacidade de ingesta oral ou comorbidades descompensadas, o paciente deve ser internado para tratamento intravenoso (ex: Ceftriaxona).

ITU na Gestação

  • Drogas seguras na gestação: Fosfomicina, Cefalexina, Amoxicilina e Nitrofurantoína (esta última contraindicada no 3º trimestre ou próximo ao parto pelo risco de anemia hemolítica neonatal).

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Gupta, K., Hooton, T. M., Naber, K. G., et al. (2011). International Clinical Practice Guidelines for the Treatment of Acute Uncomplicated Cystitis and Pyelonephritis in Women: A 2010 Update by the Infectious Diseases Society of America and the European Society for Microbiology and Infectious Diseases. Clinical Infectious Diseases, 52(5), e103-e120.
  • Chu, C. M., & Lowder, J. L. (2018). Diagnosis and treatment of urinary tract infections across age groups. American Journal of Obstetrics and Gynecology, 219(1), 40-51.
  • Nicolle, L. E., Gupta, K., Bradley, S. F., et al. (2019). Clinical Practice Guideline for the Management of Asymptomatic Bacteriuria: 2019 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, 68(10), e83-e110.