A Vaginite Aguda, abrangida pelo código genérico CID-10 N76.0, refere-se ao processo inflamatório ou infeccioso da mucosa vaginal, frequentemente acompanhado por vulvite secundária (vulvovaginite).

As queixas de corrimento vaginal anormal, prurido vulvar e odor alterado estão entre os motivos mais frequentes de consulta na atenção primária e ginecologia. A correta diferenciação clínica entre as três causas principais evita prescrições desnecessárias, resistência fúngica e persistência de sintomas.


1. O Ecossistema Vaginal Saudável

A vagina abriga uma microbiota complexa. Em idade reprodutiva, ela é dominada pelos Lactobacillus (bacilos de Döderlein). Estes produzem ácido lático e peróxido de hidrogênio, mantendo o pH vaginal baixo (ácido), variando entre 3,8 e 4,5. Este pH ácido é a principal defesa contra o supercrescimento de patógenos oportunistas.

As três grandes causadoras da vaginite/vaginose representam cerca de 90% dos casos de corrimento patológico:


2. Diagnóstico Diferencial

A) Vaginose Bacteriana (Gardnerella vaginalis)

Não é uma infecção verdadeira com inflamação forte, mas sim uma “disbiose” (desequilíbrio ecológico). Há redução dos lactobacilos e supercrescimento de bactérias anaeróbicas (principalmente Gardnerella vaginalis e Mobiluncus).

  • Corrimento: Cinza-esbranquiçado, homogêneo e fino.
  • Odor: Clássico odor fétido (“peixe podre”), que piora drasticamente após o coito sem preservativo e durante a menstruação (devido à alcalinização local pelo sêmen/sangue que volatiliza as aminas bacterianas).
  • Sintomas Inflamatórios: Raros. Não costuma haver coceira intensa ou dor.
  • Diagnóstico (Critérios de Amsel - 3 de 4): Corrimento característico, pH vaginal > 4,5, Teste das Aminas Positivo (adição de KOH a 10% libera odor forte) e presença de “Clue Cells” (células-alvo) na microscopia.

B) Candidíase Vulvovaginal

Infecção fúngica, na imensa maioria causada por Candida albicans. É oportunista e ativada por uso recente de antibióticos, diabetes descompensada, gravidez, imunossupressão ou uso excessivo de roupas apertadas/sintéticas.

  • Sintoma Cardinal: Prurido (coceira) vulvovaginal intenso e incômodo.
  • Corrimento: Branco, espesso, em grumos (aspecto de “leite coalhado” ou “ricota”).
  • Sinais Físicos: Forte hiperemia (vermelhidão) vulvar e vaginal, edema e fissuras locais. A dor para urinar (disúria externa) é comum.
  • pH Vaginal: Normal (ácido, < 4,5). O fungo prospera no pH ácido natural.

C) Tricomoníase (Trichomonas vaginalis)

É uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) verdadeira causada por um protozoário flagelado.

  • Corrimento: Amarelado/esverdeado, bolhoso (espumoso) e abundante.
  • Sinais Físicos: Inflamação intensa. Exame especular pode revelar a clássica “cérvice em aspecto de framboesa” (colpite macular com petéquias pontilhadas).
Cérvice em Framboesa
Visão especular clássica da "cérvice em aspecto de framboesa" na Tricomoníase.
  • pH Vaginal: Alcalino (pH > 5,0).

3. Tratamento Guiado

O tratamento sindrômico (empírico) é justificado quando não se tem acesso à microscopia a fresco na unidade.

Considerações Clínicas

Atenção ao Tratamento do Parceiro:

O parceiro sexual rotineiro NÃO deve ser tratado na Vaginose Bacteriana nem na Candidíase Vulvovaginal simples, pois não são consideradas ISTs diretas. O tratamento concomitante e obrigatório do(s) parceiro(s) deve ser feito exclusivamente em casos confirmados ou suspeitos de Tricomoníase, para evitar a reinfecção em "pingue-pongue".

Tratamento da Vaginose Bacteriana

  • 1ª Escolha: Metronidazol, 500mg, via oral, 12/12h por 7 dias. (Orientar evitar álcool pelo efeito antabuse grave).
  • Alternativa Tópica: Metronidazol gel vaginal (100mg/g), uma aplicação à noite, por 5 dias. Clindamicina creme a 2% é outra opção.

Tratamento da Candidíase Vulvovaginal

  • Tópico (Primeira Linha para Casos Simples e Gestantes): Miconazol creme vaginal a 2% (1 aplicador à noite por 7 dias) ou Nistatina creme vaginal (1 aplicador à noite por 14 dias).
  • Sistêmico (Casos Graves, de Repetição ou Preferência da Paciente não gestante): Fluconazol 150mg, via oral, em dose única. (Atenção: Contraindicado formalmente na gestação e lactação).

Tratamento da Tricomoníase

  • Opção 1: Metronidazol 2g, via oral, Dose Única (Para o paciente e para o parceiro).
  • Opção 2: Metronidazol 500mg, via oral, 12/12h por 7 dias.

Referências Científicas

Referências e Guidelines Científicos
  • Ministério da Saúde, Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília, Ministério da Saúde, 2022.
  • Workowski, K. A., Bachmann, L. H., Chan, P. A., et al. (2021). Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recommendations and Reports, 70(4), 1-187.
  • Eckert, L. O. (2006). Acute vulvovaginitis. New England Journal of Medicine, 355(12), 1244-1252.