CID R05: Tosse Não Especificada
Abordagem da Tosse (CID R05) na atenção primária e emergência. Principais causas (IECA, DRGE, Gotejamento Pós-Nasal) e quando investigar exaustivamente.
O CID-10 R05 engloba a Tosse não especificada. É um dos códigos “sintomáticos” mais utilizados na prática clínica inicial (Pronto-Atendimentos e UBS) quando o paciente busca atendimento para tosse, mas ainda não foi possível estabelecer um diagnóstico causal definitivo no primeiro contato.
A tosse é um reflexo protetor vital para limpar as vias aéreas, mas quando excessiva ou persistente, afeta profundamente a qualidade de vida.
1. Classificação Temporal da Tosse
O principal pilar diagnóstico para a tosse baseia-se na sua duração cronológica:
- Tosse Aguda (< 3 semanas): A esmagadora maioria é causada por infecções do trato respiratório (resfriado comum, rinossinusite aguda, bronquite aguda, COVID-19). Na emergência, as exceções graves a se excluir são pneumonia, TEP (tromboembolismo pulmonar) e insuficiência cardíaca descompensada.
- Tosse Subaguda (3 a 8 semanas): Geralmente representa a tosse pós-infecciosa (hiper-reatividade brônquica residual após uma virose) ou o início de uma tosse crônica. Também é o período clássico da tosse da Coqueluche (Bordetella pertussis).
- Tosse Crônica (> 8 semanas): O principal desafio clínico ambulatorial. Exige investigação sistêmica metódica.
2. A Tríade da Tosse Crônica (Em Pacientes com RX de Tórax Normal)
Se o paciente tem tosse há mais de 8 semanas, não é tabagista, não usa iECA, e a radiografia de tórax é rigorosamente normal, três patologias respondem por mais de 90% dos casos (a Tríade Patogênica da Tosse Crônica):
- Síndrome do Gotejamento Pós-Nasal (Síndrome da Tosse das Vias Aéreas Superiores): Secreção que escorregue pela faringe posterior secundária a rinite alérgica crônica ou rinossinusite crônica. O paciente relata pigarro e tosse pior ao deitar.
- Tratamento de prova: Corticoide nasal tópico e anti-histamínicos de 1ª geração.
- Asma (Variante Tosse): O único sintoma pode ser a tosse seca, frequentemente desencadeada pelo ar frio ou exercício, sem sibilos audíveis.
- Tratamento de prova: Corticoide inalatório e prova de função pulmonar.
- Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE): Microaspiração de suco gástrico ou estimulação do reflexo vago-vagal esofágico. Pode ser “refluxo silencioso” (sem azia clássica). A tosse costuma piorar ao falar, após as refeições ou ao deitar.
- Tratamento de prova: Inibidores da Bomba de Prótons (IBP - ex: Omeprazol 40mg/dia) por longo período (8 a 12 semanas) e MEV.
3. Armadilhas e Sinais de Alarme
A Armadilha dos Anti-Hipertensivos (iECA):
Os Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (Captopril, Enalapril, Ramipril) causam tosse seca intratável em até 20% dos pacientes, devido ao acúmulo de bradicinina e substância P nos pulmões. Essa tosse pode começar dias ou até meses/anos após o início do uso contínuo. A conduta é suspender a droga imediatamente e substituí-la (geralmente por um BRA, como Losartana). O alívio completo da tosse pode demorar até 4 semanas após a suspensão.
Sinais de Alarme (Red Flags) para a Tosse:
A presença destes sinais indica investigação imediata com Radiografia ou TC de Tórax e avaliação especializada:
- Hemoptise (tosse com sangue vivo);
- Tosse acompanhada de perda de peso não intencional e sudorese noturna (suspeitar de Tuberculose ou Linfoma);
- Tosse de início recente em tabagista de longa data, ou mudança no padrão da tosse antiga (suspeitar de Câncer de Pulmão);
- Rouquidão persistente acompanhando a tosse;
- Febre recorrente.
4. Manejo Sintomático
O uso de xaropes antitussígenos centrais (como Dextrometorfano ou Codeína) deve ser extremamente cauteloso.
- Estão contraindicados na tosse produtiva/secretiva (causam retenção de muco, predispondo a pneumonia).
- Seu uso é reservado para tosse seca exaustiva que incapacita o paciente ou o priva severamente de sono.
- Xaropes expectorantes/mucolíticos (Ambroxol, Acetilcisteína) possuem eficácia clínica controversa ou muito marginal na literatura robusta em relação à hidratação via oral abundante com água.
Referências Científicas
- Irwin, R. S., French, C. L., Chang, A. B., & Altman, K. W. (2018). Classification of Cough as a Symptom in Adults and Management Algorithms: CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest, 153(1), 196-209.
- Morice, A. H., Millqvist, E., Bieksiene, K., et al. (2020). ERS guidelines on the diagnosis and treatment of chronic cough in adults and children. European Respiratory Journal, 55(1).
- Pratter, M. R. (2006). Overview of common causes of chronic cough. Chest, 129(1_suppl), 59S-62S.