Regra de Holliday-Segar
A Regra de Holliday-Segar é o método padrão-ouro mundial para estimar a necessidade hídrica de manutenção diária em crianças (e pode ser adaptada para adultos em algumas diretrizes clínicas).
O cálculo estima a taxa metabólica basal baseada no peso corporal do paciente, garantindo que o volume de fluidos intravenosos prescrito seja clinicamente seguro para manter a homeostase e a hidratação de um paciente que encontra-se em jejum ou não consegue ingerir líquidos via oral adequadamente.
Holliday-Segar
Hidratação de Manutenção
Diretriz e Conduta Prática
A fórmula de Holliday-Segar calcula a necessidade hídrica basal (manutenção) para repor perdas insensíveis e fluxo urinário em pacientes normohidratados. Atenção: Não serve para reposição de déficit (desidratação) ou perdas contínuas (vômitos, diarreia grave).
O que é a Regra de Holliday-Segar?
A Regra de Holliday-Segar (também conhecida na prática médica como o “método 100/50/20”) é a ferramenta pediátrica definitiva para o cálculo da necessidade hídrica de manutenção diária. Desenvolvido pelos pediatras Malcolm Holliday e William Segar no ano de 1957, o método fundamenta-se no princípio fisiológico que correlaciona o gasto energético e calórico basal à perda natural de água pelo organismo (perdas insensíveis por respiração e sudorese, além da perda urinária e fecal).
Sua premissa básica dita que para cada 100 kcal metabolizadas, o corpo humano necessita de aproximadamente 100 mL de água para manter o equilíbrio hidroeletrolítico. Isso permite que médicos prescrevam um volume de fluidos intravenosos seguro para pacientes hospitalizados que não podem se hidratar por via enteral.
Como calcular a manutenção hídrica (Volume Total)?
A fórmula clássica divide o peso da criança em três faixas operacionais (patamares de peso):
- Primeiros 10 kg (0 a 10 kg): 100 mL de água por cada kg de peso.
- Próximos 10 kg (11 a 20 kg): 1.000 mL fixos + 50 mL por cada kg acima de 10 kg.
- Acima de 20 kg (> 20 kg): 1.500 mL fixos + 20 mL por cada kg acima de 20 kg.
Exemplo Clínico: Para uma criança de 25 kg, o cálculo seria: 1000 mL (pelos primeiros 10kg) + 500 mL (pelos próximos 10kg) + 100 mL (5 kg restantes × 20 mL) = Volume total de 1.600 mL nas 24 horas.
Regra 4-2-1 para Taxa de Infusão Horária
Para programar a bomba de infusão contínua em ambiente hospitalar, deriva-se da regra de Holliday-Segar a famigerada Regra do 4-2-1, que calcula a velocidade de infusão em mL/hora:
- Até 10 kg: 4 mL/kg/hora.
- De 11 a 20 kg: 40 mL/h + 2 mL/kg/hora (para cada kg acima de 10).
- Acima de 20 kg: 60 mL/h + 1 mL/kg/hora (para cada kg acima de 20).
Mudanças Recentes e Prevenção de Hiponatremia
Tradicionalmente, fluidos hipotônicos (como o Soro Glicosado a 5% com adição de Na+ a 0,2% ou 0,3%) eram usados para a fase de manutenção baseados no artigo original de 1957. Contudo, nas últimas décadas, a literatura pediátrica observou uma incidência inaceitável de hiponatremia iatrogênica hospitalar (às vezes fatal) em crianças recebendo fluidos hipotônicos devido ao estímulo não-osmótico do hormônio antidiurético (ADH) gerado pelo estresse da internação ou cirurgia.
Atualmente, a diretriz clínica da Academia Americana de Pediatria (AAP, 2018) preconiza fortemente o uso de fluidos ISOTÔNICOS (como Soro Fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato), com a adição de Dextrose e Cloreto de Potássio (KCl) de acordo com a necessidade, como fluidos de manutenção de rotina para a vasta maioria das crianças hospitalizadas, mantendo-se a estimativa de volume da regra de Holliday-Segar.
Aplicações Clínicas Importantes e Limitações
A aplicabilidade desta calculadora restringe-se a crianças internadas em observação clínica, rotinas pré e pós-operatórias (NPO) ou no tratamento de condições agudas sem choque.
Limitações (Quando NÃO usar a fórmula como regra estrita):
- Ressuscitação Volêmica: A regra de Holliday-Segar é EXCLUSIVA para fluidos de manutenção. Ela jamais deve ser utilizada para repor perdas agudas, reverter quadros de choque hipovolêmico ou tratar desidratação severa (neste caso, utilizam-se os bolus rápidos de 20 mL/kg preconizados pelo PALS).
- Restrição Hídrica: Pacientes com insuficiência cardíaca congestiva (ICC), insuficiência renal oligúrica ou meningite (risco de SIADH) frequentemente requerem restrição hídrica (ex: 50% a 70% do volume de Holliday-Segar).
- Hipermetabolismo: Condições como queimaduras, febre alta persistente ou hipertireoidismo aumentam o gasto energético e demandam ajustes ascendentes na oferta hídrica.
Referências Bibliográficas
- Holliday, M. A., & Segar, W. E. (1957). The maintenance need for water in parenteral fluid therapy. Pediatrics, 19(5), 823-832. (O estudo seminal que fundamentou a fórmula).
- Feld, L. G., Neuspiel, D. R., Foster, B. A., et al. (2018). Clinical Practice Guideline: Maintenance Intravenous Fluids in Children. Pediatrics, 142(6), e20183083. (Diretriz atualizada sobre fluidos isotônicos).
- Meyers, R. S. (2009). Pediatric Fluid and Electrolyte Therapy. The Journal of Pediatric Pharmacology and Therapeutics, 14(4), 204–211.
- UpToDate (2025). Maintenance intravenous fluid therapy in children.
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