Questão 14 — UNIFESP 2020
Prematuro de 33 semanas, sexo masculino, nasceu de parto normal sem intercorrências. Mãe é tabagista e usuária de cocaína. No terceiro dia de vida apresentou resíduo gástrico amarelo-esverdeado, sendo optado por manter alimentação por sonda orogástrica e observação. No quarto dia de vida apresentou distensão abdominal, hipotermia e episódio de apneia persistente, requerendo expansão volumétrica e intubação orotraqueal. Submetido à radiografia simples de abdome que evidenciou imagens radioluscentes lineares e bolhosas em paredes intestinais, além de ar no sistema porta. Baseado no relato, o diagnóstico é:
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Alternativa Correta: C.
O caso clínico apresenta um recém-nascido prematuro limítrofe (33 semanas) com fatores de risco maternos críticos para isquemia esplâncnica (uso materno de tabaco e cocaína, potente vasoconstritor placentário e mesentérico) que evolui no 3º ao 4º dia de vida com estagnação e resíduos gástricos biliosos, distensão abdominal progressiva, instabilidade clínica e hemodinâmica grave (hipotermia, apneia e choque exigindo expansão e ventilação mecânica). A radiografia simples de abdome revela o achado radiológico patognomônico de pneumatose intestinal (imagens radioluscentes lineares e bolhosas na parede das alças) associada a ar no sistema venoso porta, o que estabelece com segurança o diagnóstico de enterocolite necrosante (ECN).
Fisiopatologia e Marcadores Radiológicos da ECN:
- Tríade Patogênica: A ECN decorre da conjugação de imaturidade da barreira mucosa gastrointestinal de prematuros, lesão isquêmico-hipóxica da microcirculação esplâncnica (agravada pela exposição intrauterina à cocaína) e disbiose secundária à colonização bacteriana intraluminal estimulada pela alimentação enteral;
- Pneumatose Intestinal: Resulta da quebra da barreira epitelial com invasão da lâmina própria e submucosa por bactérias produtoras de gás hidrogênio. Esse gás disseca as camadas da parede intestinal formando linhas e bolhas radioluscentes visíveis na radiografia de abdome (estágio II de Bell);
- Gás no Sistema Venoso Porta: Ocorre quando o gás intramural é reabsorvido pelas veias mesentéricas e drena para a circulação portal intra-hepática, sinalizando doença avançada com necrose transmural extensa (estágio IIb ou III de Bell);
- Manejo Inicial: Suspensão imediata da dieta enteral (jejum estrito), descompressão gástrica contínua com sonda aberta em sifonagem, antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro cobrindo gram-negativos, gram-positivos e anaeróbios, ressuscitação volêmica e monitorização cirúrgica rigorosa para detectar perfuração (pneumoperitônio).
Análise dos distratores:
- A. perfuração biliar espontânea: Incorreta, pois é uma afecção rara que se manifesta de forma insidiosa com icterícia acentuada, fezes acólicas e ascite biliar, sem pneumatose parietal intestinal ou ar no sistema porta.
- B. síndrome de abstinência no período neonatal: Incorreta, pois a abstinência à cocaína cursa predominantemente com sinais neurológicos e autonômicos (choro inconsolável, hipertonia, irritabilidade, tremores e taquicardia), não causando necrose isquêmica com pneumatose intestinal.
- D. sepse neonatal: Incorreta, pois embora a enterocolite necrosante avançada curse invariavelmente com síndrome da resposta inflamatória sistêmica e sepse de foco intestinal, o diagnóstico patológico primário firmado pela pneumatose e gás no sistema porta é enterocolite necrosante.
- E. volvo do intestino médio: Incorreta, pois a rotação intestinal anômala com volvo manifesta-se tipicamente com vômitos biliosos agudos catastróficos e padrão radiológico de ausência de gás distal ou estômago dilatado em bico de pássaro, sem as lesões bolhosas murais da pneumatose difusa.
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