Questão 20 — UNIFESP 2020
Mulher, 28 anos de idade, refere formigamento inicialmente nos pés que evoluiu até o joelho esquerdo e nas mãos, há 4 dias. Exame físico: força muscular grau 4 global, arreflexia, hipoestesia em “bota e luva”, sem alteração esfincteriana ou sensitiva. Qual é o diagnóstico mais provável?
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Alternativa Correta: D.
O caso clínico retrata uma paciente jovem de 28 anos com quadro agudo e rapidamente progressivo instalado há 4 dias, caracterizado por parestesias distais com evolução ascendente (início nos pés com progressão para joelhos e mãos), fraqueza motora tetraparesia simétrica (força grau 4 global), arreflexia profunda generalizada, distribuição sensitiva periférica em "bota e luva", associada à ausência de disfunção esfincteriana ou de nível sensitivo medular. Essa apresentação clínica configura a tríade clássica da Síndrome de Guillain-Barré (SGB), classicamente a Polirradiculoneuropatia Desmielinizante Inflamatória Aguda (AIDP).
Fisiopatologia e Critérios Diagnósticos de Guillain-Barré:
- Mimetismo Molecular: Trata-se de uma neuropatia autoimune pós-infecciosa desmielinizante, deflagrada comumente por infecções gastrointestinais (Campylobacter jejuni) ou respiratórias prévias. Ocorre produção de anticorpos contra antígenos bacterianos/virais que realizam reação cruzada contra gangliosídeos dos nervos periféricos e raízes nervosas;
- Sinais Motores e Reflexos: A lesão das bainhas de mielina periféricas causa bloqueio de condução nervosa, manifestando-se por fraqueza flácida, simétrica e tipicamente ascendente, associada à abolição precoce dos reflexos miotáticos (arreflexia ou hiporreflexia global profunda), que é a marca semiológica cardeal de acometimento do segundo neurônio motor periférico;
- Padrão Sensitivo e Ausência de Nível: As alterações sensitivas são leves a moderadas e restritas aos segmentos distais ("bota e luva"), sem nível sensitivo cutâneo no tronco; a preservação das funções autonômica vesical e esfincteriana na fase inicial afasta etiologias medulares compressivas ou inflamatórias;
- Exames Complementares: O diagnóstico é essencialmente clínico, sendo corroborado pela eletroneuromiografia (bloqueio de condução e prolongamento de latências) e pela punção liquórica que revela a clássica dissociação proteinocitológica (elevação expressiva de proteínas com contagem celular liquórica normal). O tratamento baseia-se em imunoglobulina humana intravenosa ou plasmaférese.
Análise dos distratores:
- A. Acidente vascular isquêmico transitório: Incorreta, pois os sintomas do AIT são de início súbito, unilaterais/assimétricos e com reversão espontânea completa em até 24 horas, e não uma tetraparesia simétrica ascendente progressiva ao longo de vários dias.
- B. Miastenia gravis: Incorreta, pois a miastenia acomete a transmissão da junção neuromuscular pós-sináptica, manifestando-se por fatigabilidade muscular flutuante e sintomas oculares/bulbares precoces (ptose palpebral e diplopia), mantendo a sensibilidade íntegra e os reflexos osteotendíneos perfeitamente preservados.
- C. Mielite transversa: Incorreta, pois a mielite transversa aguda acomete a medula espinhal, cursando obrigatoriamente com nível sensitivo cutâneo bem definido no tronco, disfunção esfincteriana precoce (retenção urinária aguda) e hiperreflexia tendínea com sinal de Babinski após o período inicial do choque espinal.
- E. Miopatia inflamatória: Incorreta, pois doenças do sarcolema/músculo estriado (como polimiosite e dermatomiosite) provocam fraqueza predominantemente proximal (cinturas escapular e pélvica), preservando a sensibilidade periférica e os reflexos profundos até fases muito avançadas da doença.
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