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UNIFESP 2020

Questão 30 — UNIFESP 2020

Clínica Médica Geriatria Síndromes Geriátricas

Mulher, 82 anos de idade, chega em consulta com a filha com queixa de esquecimento e sensação de mal-estar. Deixou de frequentar o clube dos idosos, prefere ficar em casa e perdeu o prazer nas atividades habituais. Nega tristeza e tem bom apetite. Refere uma certa irritação porque perde objetos. Não acorda descansada pela manhã. Aparenta estar distraída durante a consulta. Qual é o instrumento que melhor auxilia no diagnóstico deste caso?

A Mini Exame do Estado Mental (Mini Mental)
B Método de Avaliação CAM (Confusion Assessment Method)
C Atividades de Vida Diária (AVD) de Katz
D Escala de Depressão Geriátrica (GDS)
E Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD) de Lawton
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Resposta Correta D
Comentário

Alternativa Correta: D.

Depressão no Idoso e Apresentação Atípica ("Depressão sem Tristeza"):
A depressão na faixa etária geriátrica manifesta-se com grande frequência por quadros oligossintomáticos ou atípicos, nos quais o humor francamente triste não é verbalizado pelo paciente ("nega tristeza"). Nesses idosos, o núcleo clínico do transtorno depressivo maior é constituído por:

  • Anedonia marcante: perda generalizada do interesse e da capacidade de sentir prazer nas atividades habituais (a paciente parou de frequentar o clube dos idosos e prefere ficar reclusa em casa);
  • Sintomas somáticos inespecíficos: queixas vagas de "mal-estar", astenia crônica e sono não reparador matinal;
  • Sintomas cognitivos e atencionais ("Pseudodemência Depressiva"): queixas ativas de esquecimento, perda de pertences associada à irritabilidade, dificuldade de concentração e aparente distração na consulta.

Diferenciação entre Pseudodemência e Demência Verdadeira:
Na pseudodemência depressiva (disfunção cognitiva secundária ao transtorno do humor), a queixa de memória parte enfaticamente do próprio paciente, que se mostra aflito, incomodado e irritado com seus lapsos, frequentemente responde "não sei" nos testes por abulia e desmotivação, mas mantém sua integridade funcional preservada para autocuidado e atividades habituais quando estimulado. Já na síndrome demencial primária (como a Doença de Alzheimer), a queixa de declínio cognitivo costuma ser relatada quase exclusivamente pelos familiares, enquanto o paciente minimiza ou nega suas falhas (anosognosia) e apresenta perda progressiva real da autonomia funcional.

O Instrumento de Escolha: Escala de Depressão Geriátrica (GDS):
Diante da forte suspeição de transtorno depressivo subjacente com repercussão cognitiva atencional, a ferramenta padrão-ouro de triagem e avaliação do humor preconizada na Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é a Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage (GDS - Geriatric Depression Scale), validada nas versões de 30 e 15 itens (GDS-15). A GDS foi intencionalmente estruturada para diminuir a ênfase em sintomas somáticos (que poderiam confundir com queixas físicas comuns da senescência) e focar primariamente nos domínios afetivos, motivação, bem-estar e anedonia, auxiliando decisivamente no diagnóstico de depressão no idoso.

Análise dos Distratores:

  • A (Incorreta): O Mini Exame do Estado Mental (MEEM) de Folstein avalia a cognição global (orientação, memória, cálculo, linguagem e praxia), mas não é o instrumento específico para diagnosticar a causa do esquecimento. Em pacientes com pseudodemência depressiva, o MEEM pode sofrer impacto negativo artificial pela falta de atenção e desmotivação, sem elucidar o diagnóstico etiológico primário de depressão.
  • B (Incorreta): O CAM (Confusion Assessment Method) é o instrumento diagnóstico padronizado para Delirium (estado confusional agudo caracterizado por início súbito, curso flutuante, desatenção e pensamento desorganizado), afecção aguda inexistente na evolução clínica desta paciente.
  • C (Incorreta): A Escala de Katz afere a independência nas Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD: banho, vestuário, higiene, transferência, continência e alimentação), medindo dependência física motora, não servindo como instrumento diagnóstico de transtornos do afeto ou cognição.
  • E (Incorreta): A Escala de Lawton e Brody quantifica o grau de autonomia nas Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD: manejo de finanças, uso de telefone, preparação de refeições, afazeres domésticos, uso de transporte e medicação). Trata-se de instrumento funcional e não diagnóstico para desvendar a etiologia do humor.

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