Questão 35 — UNIFESP 2020
Em relação à hemocromatose, assinale a alternativa correta.
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Alternativa Correta: E.
A hemocromatose é uma doença caracterizada pelo distúrbio crônico no metabolismo do ferro decorrente da síntese deficiente ou resistência à ação da hepcidina (o principal hormônio regulador negativo da absorção intestinal de ferro). Com a hepcidina suprimida, ocorre hiperabsorção intestinal de ferro e liberação desregulada do metal pelos macrófagos, culminando em elevação do ferro sérico, alta saturação da transferrina (tipicamente > 45% a 50%) e hiperferritinemia.
O excesso crônico de ferro satura a transferrina e gera ferro não ligado à transferrina (NTBI) e ferro lábil plasmático, que penetram avidamente nas células parenquimatosas (hepatócitos, células beta pancreáticas, miócitos cardíacos, gonadotrofos hipofisários e condrócitos). Nesses tecidos, o ferro catalisa reações de Fenton gerando espécies reativas de oxigênio, peroxidação lipídica e fibrose tecidual progressiva (cirrose, diabetes mellitus / diabetes bronzeado, insuficiência cardíaca, hipogonadismo hipogonadotrófico e artropatia). Portanto, o aumento de ferro sérico, a elevada saturação da transferrina e a deposição excessiva de ferro parenquimatoso representam os denominadores fisiopatológicos universais da hemocromatose.
Análise dos distratores:
- A: A pesquisa de mutações no gene HFE (como homozigose C282Y ou heterozigose composta C282Y/H63D) confirma o tipo mais prevalente (tipo 1), mas não é estritamente mandatória para o diagnóstico de sobrecarga férrica, pois existem formas de hemocromatose hereditária não-HFE (mutações em hemojuvelina [HJV], hepcidina [HAMP], receptor 2 de transferrina [TFR2] e ferroportina [SLC40A1]), além do diagnóstico clínico e imagenológico bem estabelecido.
- B: A hemocromatose não causa anemia hipocrômica microcítica. A anemia hipocrômica e microcítica decorre da carência de ferro (anemia ferropriva) ou de defeitos na síntese de globina (talassemias); na hemocromatose, os estoques orgânicos de ferro estão saturados e a hemoglobina costuma ser normal.
- C: A biópsia hepática deixou de ser mandatória há muitos anos na era da genética e da ressonância magnética multiparamétrica. A flebotomia terapêutica (sangria) é iniciada com base na saturação de transferrina, ferritina e quantificação de ferro hepático por ressonância magnética, reservando-se a biópsia para casos de dúvida diagnóstica ou suspeita de cirrose em pacientes com ferritina > 1.000 ng/mL ou enzimas hepáticas alteradas.
- D: A ressonância magnética hepática (técnicas de T2*, R2* ou gradiente-eco) possui excelente acurácia diagnóstica, com altíssima especificidade para a detecção de ferro devido ao encurtamento do tempo de relaxamento transversal causado pelo forte efeito paramagnético do ferro depositado.
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