Questão 90 — UNIFESP 2020
Criança, 5 anos de idade, com histórico de problemas respiratórios, era acompanhada na UBS próxima a sua casa. Com a mudança da família para outra região do mesmo município, não se vinculou à UBS de referência no novo território, que naquele momento contava com médico em apenas uma equipe de Saúde da Família. O agendamento de novas consultas estava demorando e durante alguns meses a criança não conseguiu ser atendida. A mãe passou a levá-la com frequência à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) sempre que apresentava crises respiratórias. Estes atendimentos eram muito rápidos, focados na queixa do momento e a mãe se mostrava insegura e insatisfeita, porque as crises respiratórias foram ficando mais frequentes e resistentes aos medicamentos. Analise o caso e assinale a alternativa correta.
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Alternativa Correta: B.
Atributos e Diretrizes Operacionais da Atenção Primária à Saúde (APS):
O caso clínico retrata um cenário clássico de fragmentação assistencial decorrente da quebra do vínculo territorial e da ausência de atributos essenciais da Atenção Básica (descritos por Barbara Starfield e normatizados na Política Nacional de Atenção Básica - PNAB / Portaria de Consolidação GM/MS nº 2/2017):
- Acolhimento com Escuta Qualificada e Classificação de Risco: O acolhimento na Estratégia Saúde da Família (ESF) é uma diretriz clínica e postura ética multiprofissional desenvolvida por toda a equipe (enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde e médicos). A ausência transitória de médico em uma equipe não impede que a equipe de enfermagem acolha a mãe e a criança, realize escuta atenta, avalie o histórico de asma / sibilância recorrente, estratifique a gravidade da doença, oriente o uso adequado de broncodilatadores inalatórios e matricie o caso com a equipe contígua que possui médico para prescrição de corticoterapia inalatória preventiva.
- Coordenação do Cuidado: A UBS atua como centro de comunicação e ordenadora das Redes de Atenção à Saúde (RAS). Cabe à Atenção Básica coordenar o itinerário terapêutico da criança, articulando contrarreferências com a UPA para reabsorver a paciente na unidade territorial, elaborar um plano singular de cuidado e evitar a peregrinação periódica aos serviços de urgência.
- Longitudinalidade e Adscrição de Clientela: A longitudinalidade refere-se ao acompanhamento interpessoal continuado ao longo do tempo. A adscrição vincula formalmente a família ao território de uma equipe. No caso, ambas as funções falharam: a família mudou-se e não foi cadastrada nem vinculada pela equipe local, faltando busca ativa pelos ACS do território.
Disfunção do Uso Exclusivo da UPA na Doença Crônica:
As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) são desenhadas para o alívio imediato e estabilização de urgências agudas, operando em atendimentos rápidos centrados no evento episódico. Não possuem desenho estrutural para instituir acompanhamento longitudinal, controle de fatores ambientais desencadeantes, ajuste de terapia de manutenção (corticoide inalatório) ou educação continuada da técnica inalatória. A dependência exclusiva da UPA perpetuou o descontrole crônico da doença respiratória da criança, resultando em exacerbações frequentes e resistência aparente aos medicamentos (decorrente de má adesão ou técnica inalatória inadequada não corrigidas).
Análise dos Distratores:
- Alternativas A e C (Incorretas): Afirmam que adscrição, longitudinalidade, responsabilização e busca ativa foram "contempladas". O caso demonstra exatamente o oposto: a ocorrência de grave ruptura e falência de todos esses atributos essenciais.
- Alternativa D (Incorreta): A Atenção Básica é altamente resolutiva (soluciona mais de 80 a 85% dos problemas de saúde comunitários), sendo o nível ideal para acompanhamento preventivo da asma e prevenção de crises. A ida à UPA decorreu de barreiras administrativas no agendamento e falta de acolhimento na UBS, e não de insuficiência resolutiva da APS.
- Alternativa E (Incorreta): A Atenção Básica tem total competência técnica e atribuição assistencial para diagnosticar, acompanhar longitudinalmente e tratar tanto a fase crônica quanto exacerbações agudas leves a moderadas de doenças respiratórias em crianças (com nebulização/inalação com espaçador na própria UBS).
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