Questão 36 — UNIFESP 2021
Homem, 75 anos de idade, portador de DPOC estádio II B, em uso regular de tiotrópio e salmeterol, encontra-se estável e comparece em consulta de rotina. Exames laboratoriais: Hb = 18 g∕dL (VR: 13,5 – 17,5 g/dL), Htc = 59%. Gasometria arterial em ar ambiente com paciente eupneico: pH = 7,35; PaO2 = 49 mmHg; PaCO2 = 58 mmHg; HCO3 = 31 mEq/L; SpO2 = 85%. O que se pode concluir?
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Alternativa Correta: B.
A análise conjunta do quadro clínico, dos exames laboratoriais e da gasometria arterial evidencia um paciente com insuficiência respiratória crônica compensada, caracterizada por hipoxemia crônica e hipercapnia crônica:
1. Evidência de Hipoxemia Crônica:
- A gasometria arterial revela hipoxemia grave em ar ambiente (PaO2 = 49 mmHg e SpO2 = 85%).
- O exame laboratorial demonstra policitemia / eritrocitose secundária relevante (hemoglobina de 18 g/dL e hematócrito de 59%). A poliglobulia secundária é uma resposta biológica adaptativa mediada pela liberação contínua de eritropoietina pelo interstício renal em resposta à hipóxia tecidual prolongada sustentada ao longo de meses ou anos, confirmando indubitavelmente a cronicidade da hipoxemia. (Vale ressaltar que a presença de PaO2 < 50 mmHg em ar ambiente associada a poliglobulia estabelece indicação clássica para oxigenoterapia domiciliar prolongada).
2. Evidência de Hipercapnia Crônica Compensada:
- A gasometria mostra PaCO2 = 58 mmHg (retenção de dióxido de carbono / hipercapnia expressiva, cujo valor de referência é de 35 a 45 mmHg).
- O pH sanguíneo encontra-se em 7,35 (exatamente no limite inferior da normalidade: 7,35 a 7,45), sem acidemia manifesta.
- Essa normalização do pH é decorrente da elevação compensatória do bicarbonato plasmático para 31 mEq/L (VR: 22 a 26 mEq/L).
- Pela fisiologia renal e acidobásica:
- Na acidose respiratória aguda, a retenção renal de bicarbonato ainda não ocorreu (demora de 3 a 5 dias para atingir efeito máximo); o tamponamento tecidual imediato eleva o bicarbonato em apenas cerca de 1 mEq/L para cada 10 mmHg de elevação na PaCO2 acima de 40 mmHg, resultando em pH francamente ácido (< 7,30).
- Na acidose respiratória crônica, os rins reabsorvem e retêm ativamente bicarbonato: para cada 10 mmHg de aumento na PaCO2 acima de 40 mmHg, o bicarbonato sérico eleva-se entre 3,5 e 4,0 mEq/L. No caso: ΔPaCO2 = 58 - 40 = 18 mmHg. O aumento esperado de bicarbonato é de aproximadamente 1,8 × 3,5 a 4,0 ≅ 6,5 a 7,2 mEq/L. Somando ao valor basal médio de 24 mEq/L, o bicarbonato esperado situa-se entre 30,5 e 31,2 mEq/L, valor rigorosamente idêntico ao encontrado (31 mEq/L).
Portanto, tanto a hipoxemia quanto a hipercapnia são crônicas e adaptadas, o que justifica perfeitamente o fato de o paciente estar eupneico e estável em consulta ambulatorial de rotina.
Análise dos distratores:
- Alternativa A (Incorreta): A hipercapnia é crônica, e não aguda, visto que o bicarbonato está marcadamente elevado (31 mEq/L) e o pH está preservado em 7,35.
- Alternativa C (Incorreta): A hipoxemia é cronicamente instalada, evidenciada pela resposta eritropoiética adaptativa medular com Htc de 59% e Hb de 18 g/dL.
- Alternativa D (Incorreta): Os achados gasométricos e laboratoriais são clássicos e perfeitamente compatíveis com o estado clínico de paciente com DPOC que evoluiu com hipoxemia e hipercapnia crônicas retentoras e compensadas.
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