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UNIFESP 2021

Questão 38 — UNIFESP 2021

Clínica Médica Infectologia Endocardite, Osteoarticular e Pele

Mulher, 18 anos de idade, refere ter retornado de viagem em grupo comemorando formatura por 2 semanas. Há 5 dias refere dor em ombro D, passando para cotovelo E, joelho D e atualmente em punho E. Exame físico: calor, eritema, aumento de volume do punho E, que se estende para o dorso da mão, com intensa dor à palpação e mobilização articular. Não há sinais inflamatórios nas demais articulações. D = direito; E = esquerdo. Qual diagnóstico e conduta adequados?

A Artrite estafilocócica. Oxacilina endovenosa.
B Artrite séptica. Aguardar resultado da cultura do líquido sinovial para início do antibiótico.
C Artrite gonocócica. Ceftriaxona endovenosa.
D Artrite microcristalina. Anti-inflamatório não hormonal via oral.
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Resposta Correta C
Comentário

Alternativa Correta: C.

O quadro clínico apresentado é clássico e patognomônico da Infecção Gonocócica Disseminada (IGD) / Artrite Gonocócica, causada pela bactéria sexualmente transmissível Neisseria gonorrhoeae (diplococo gram-negativo intracelular), a principal causa de artrite séptica em adultos jovens sexualmente ativos:

1. Apresentação Clínica Clássica da IGD:

A infecção gonocócica disseminada apresenta duas síndromes clínicas clássicas que se sobrepõem:

  • Síndrome Artrite-Dermatite / Fase Bacteriêmica: Caracteriza-se por poliartralgia migratória ou aditiva de início agudo (no caso: ombro D → cotovelo E → joelho D), seguida de tenossinovite exuberante assimétrica, frequentemente acometendo bainhas tendíneas dos punhos, dedos e dorso das mãos ou tornozelos (no caso: punho esquerdo estendendo-se ao dorso da mão), associada ou não a lesões cutâneas periféricas típicas (pápulas, pústulas necróticas ou bolhas hemorrágicas com halo eritematoso, que podem estar ausentes em parte dos pacientes).
  • Forma de Artrite Séptica Supurativa Localizada: Mono ou oligoartrite aguda franca com efusão articular purulenta, que tipicamente sucede a fase migratória inicial.

2. Investigação Diagnóstica e Conduta Terapêutica:

  • A história de retorno recente de viagem de formatura comemorativa em jovem de 18 anos reforça o contexto epidemiológico de exposição a infecções sexualmente transmissíveis.
  • Devem ser colhidas hemoculturas e amostras para teste de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT/PCR) ou cultura de múltiplos sítios mucosos (colo uterino/vagina, uretra, reto e orofaringe), locais onde a sensibilidade para recuperar a bactéria é significativamente mais alta do que no próprio líquido sinovial (a cultura do líquido sinovial na fase com tenossinovite é positiva em menos de 25% a 50% dos casos).
  • Conduta antimicrobiana: O tratamento inicial de escolha para a infecção gonocócica disseminada é a ceftriaxona por via parenteral (1 g intravenosa a cada 24 horas), mantida por via parenteral até pelo menos 24 a 48 horas após a melhora clínica evidente, completando-se o ciclo terapêutico por 7 dias. Adicionalmente, preconiza-se o rastreio e tratamento concomitante para Chlamydia trachomatis (doxiciclina 100 mg 12/12h por 7 dias) se a coinfecção não for afastada por testes moleculares, além da convocação e tratamento dos parceiros sexuais.

Análise dos distratores:

  • Alternativa A (Incorreta): A artrite por Staphylococcus aureus é mais comum em idosos, diabéticos, imunodeprimidos ou usuários de drogas injetáveis, manifestando-se como monoartrite purulenta aguda destrutiva primária (geralmente joelho ou quadril), sem pródromo de poliartralgia migratória nem tenossinovite distal associada.
  • Alternativa B (Incorreta): NUNCA se deve aguardar o resultado de culturas para instituir o tratamento antimicrobiano em casos suspeitos de artrite infecciosa. O atraso no início do antibiótico leva à liberação de enzimas condrolíticas e neutrofílicas que destroem a cartilagem hialina articular de forma irreversível em 24 a 48 horas. Além disso, as culturas de líquido sinovial na gonococcemia frequentemente são estéreis.
  • Alternativa D (Incorreta): As artrites microcristalinas (gota úrica e pseudogota/deposição de pirofosfato de cálcio) são entidades extremamente raras em mulheres jovens na menacme de 18 anos sem comorbidades de base, não apresentando o curso migratório associado à tenossinovite exuberante do punho e dorso da mão.

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