Questão 75 — UNIFESP 2021
Recém-nascido a termo, três dias de vida, apresenta petéquias e equimoses disseminadas e hepatoesplenomegalia. Emissões otoacústicas ausentes na triagem auditiva. Exame oftalmológico e análise de líquor normais. Tomografia de crânio em anexo. Considerando a hipótese diagnóstica mais provável, qual tratamento é mais recomendado?

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Alternativa Correta: D.
Análise Visual da Tomografia Computadorizada de Crânio:
A imagem tomográfica em corte axial sem contraste demonstra com grande clareza calcificações periventriculares grosseiras, lineares e simétricas dispostas ao longo do contorno subependimário dos ventrículos laterais, associadas a dilatação ventricular bilateral (ventriculomegalia / ectasia ventricular ex-vácuo). Esse padrão periventricular subependimário é o achado neurorradiológico clássico e patognomônico da Citomegalovirose Congênita (CMV), refletindo o intenso neurotropismo do vírus citomegalovírus pelas células germinativas da matriz subependimária em proliferação ativa periventricular, onde causa lise celular, necrose focal e calcificação distrófica secundária. Esse padrão distingue-se nitidamente do observado na Toxoplasmose Congênita, cujas calcificações intracranianas distribuem-se de forma difusa e desordenada por todo o parênquima cerebral e núcleos da base.
Quadro Clínico Associado:
- O recém-nascido manifesta a forma congênita sintomática clássica da síndrome TORCH por CMV: petéquias e equimoses disseminadas (resultantes de plaquetopenia por supressão medular e eritropoiese extramedular cutânea - aspecto de blueberry muffin baby) e hepatoesplenomegalia volumosa.
- Comprometimento Auditivo: As emissões otoacústicas ausentes na triagem auditiva neonatal documentam perda auditiva neurossensorial, que representa a sequela permanente não genética mais prevalente do CMV congênito. A normalidade do exame de fundo de olho afasta a coriorretinite típica de toxoplasmose e a análise liquórica sem pleocitose é compatível com CMV.
Conduta Terapêutica Padrão-Ouro:
- A conduta de escolha preconizada para o recém-nascido com infecção congênita sintomática por CMV (especialmente na presença de envolvimento do sistema nervoso central ou déficit auditivo) é o tratamento antiviral oral com Valganciclovir na dose de 16 mg/kg/dose, 2 vezes ao dia, durante 6 meses.
- O estudo clínico randomizado multicêntrico de referência do Collaborative Antiviral Study Group (CASG - Kimberlin et al., New England Journal of Medicine, 2015) comprovou que a extensão do tratamento com valganciclovir oral de 6 semanas para 6 meses promoveu melhora modesta, mas estatisticamente significativa e duradoura, na preservação dos limiares auditivos e em escores neurocognitivos de desenvolvimento da escala de Bayley-III aos 24 meses de idade, com toxicidade hematológica (neutropenia) manejável e comparável ao esquema curto.
Justificativa dos Distratores:
- Alternativa A incorreta: O ganciclovir intravenoso por 6 semanas corresponde ao esquema histórico antigo, que foi substituído pelo valganciclovir oral por 6 meses tanto pela comodidade posológica e desnecessidade de acesso vascular profundo permanente quanto pela eficácia superior no neurodesenvolvimento a longo prazo.
- Alternativa B incorreta: O aciclovir oral por 6 meses é a terapia supressiva recomendada para a infecção neonatal pelo Vírus Herpes Simples (HSV), não possuindo atividade antiviral adequada contra o citomegalovírus.
- Alternativa C incorreta: O esquema tríplice com sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico durante 12 meses é o protocolo específico e exclusivo para o tratamento da toxoplasmose congênita.
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