Questão 95 — UNIFESP 2021
Homem, 24 anos de idade, 70 kg, hígido, encostou num fio de alta tensão, com entrada da corrente elétrica nas mãos e saída nos pés. As lesões totalizaram 15% de superfície corpórea. Qual é a conduta mais adequada?
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Alternativa Correta: A.
O paciente sofreu queimadura elétrica de alta tensão (corrente superior a 1.000 volts decorrente do contato com fiação de alta tensão), com marcas clássicas de entrada cutânea nos membros superiores (mãos) e saída nos membros inferiores (pés), acometendo 15% da superfície corpórea calculada.
Fisiopatologia e Riscos Clínicos no Trauma Elétrico:
- Efeito Joule e Lesão Muscular Profunda: A passagem de corrente elétrica através de tecidos de alta resistência biológica (como a musculatura esquelética profunda e o tecido ósseo) dissipa imensa energia térmica, gerando necrose e destruição tecidual muscular maciça (rabdomiólise oculta profunda) que não é refletida pelas lesões cutâneas externas visíveis (“efeito ponta do iceberg”).
- Arritmias Cardíacas Graves: Pelo fato de o trajeto da corrente (mãos aos pés) transfixar a cavidade torácica e cruzar o músculo miocárdico, o paciente corre risco iminente de fibrilação ventricular, assistolia e distúrbios da condução atrioventricular, exigindo monitorização eletrocardiográfica contínua obrigatória em ambiente hospitalar por pelo menos 24 a 48 horas.
- Lesão Renal Aguda Pigmentar (NTA): A lise muscular maciça libera grandes quantidades de mioglobina na circulação sistêmica. A mioglobinúria maciça, associada à hipovolemia por extravasamento capilar e acidez tubular, precipita cilindros de mioglobina nos túbulos renais, desencadeando lesão renal aguda tóxica e necrose tubular aguda (NTA). A internação hospitalar para hidratação venosa vigorosa e alcalinização urinária é mandatória.
Por que as demais alternativas estão incorretas?
- Alternativa B: Fixar uma velocidade de infusão arbitrária de 1.000 ml a cada 2 horas (500 ml/h contínuos, perfazendo 12 litros em 24 horas) em um adulto de 70 kg sem qualquer titulação fisiológica é inadequado e altamente arriscado, predispondo à sobrecarga hídrica pulmonar e agravo da síndrome compartimental.
- Alternativa C: A meta de débito urinário preconizada pelas diretrizes de trauma e queimados (American Burn Association e ATLS) para queimaduras elétricas com mioglobinúria/rabdomiólise é de 1,0 a 1,5 ml/kg/h (cerca de 70 a 100 ml/h em adultos) até o clareamento visual da urina; buscar valores acima de 4 ml/kg/h induz hiper-hidratação desmedida e danosa.
- Alternativa D: Embora exista risco real de síndrome compartimental nas extremidades eletrocutadas, a conduta de “manter hidratação sem maior rigor” constitui negligência grave, visto que a ressuscitação volêmica vigorosa, individualizada e rigidamente controlada é a intervenção prioritária para evitar a falência renal aguda pigmentar.
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