Questão 30 — UNIFESP 2022
Mulher, 48 anos de idade, foi admitida no PS com diagnóstico de tromboembolismo pulmonar agudo. Apresenta oligúria e sangramento vaginal em moderada quantidade. Exame físico: presença de massa no colo do útero, medindo 6 cm, friável, necrótica, sangrante, com forte odor pútrido, ocupando fórnices vaginais. Exames laboratoriais: Hb 5,4 g/dL; Ht 12,2%; Ureia 245 mg/dL; Creatinina 7,5 mg/dL. US de rins e vias urinárias: dilatação ureteral bilateral acentuada. Qual é a conduta mais adequada, após a compensação clínica?
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Alternativa Correta: B.
A paciente de 48 anos apresenta uma neoplasia cervical avançada com múltiplas repercussões sistêmicas críticas:
- Exame Físico e Estadiamento Clínico (FIGO 2018): Massa exofítica cervical de 6 cm, friável, com necrose e odor pútrido, estendendo-se aos fórnices vaginais. A presença de dilatação ureteral bilateral acentuada (hidronefrose) com insuficiência renal aguda pós-renal obstrutiva grave (Ureia 245 mg/dL, Creatinina 7,5 mg/dL) classifica o tumor no mínimo como Estádio IIIB da FIGO (tumor que se estende à parede pélvica e/ou causa hidronefrose ou rim não funcionante).
- Comorbidades Agudas: Apresenta ainda tromboembolismo pulmonar (TEP) agudo secundário ao estado de hipercoagulabilidade neoplásica e anemia grave (Hb 5,4 g/dL) decorrente do sangramento tumoral persistente.
Raciocínio Clínico e Conduta em Duas Etapas:
- Estabilização Clínica e Urológica Imediata: Após hemotransfusão, estabilização hemodinâmica e anticoagulação para o TEP, a prioridade absoluta é a descompressão das vias urinárias. A realização de derivação urinária por cateter duplo J retrógrado ou nefrostomia percutânea bilateral é mandatória para reverter a uropatia obstrutiva, recuperar a taxa de filtração glomerular e viabilizar a administração de medicações nefrotóxicas e quimioterápicos.
- Tratamento Oncológico Definitivo: No câncer de colo uterino localmente avançado (estádios IIB até IVA, englobando o estádio IIIB), a cirurgia radical (como a histerectomia radical com linfadenectomia pélvica de Wertheim-Meigs) é formalmente contraindicada. A cirurgia é incapaz de obter margens livres, aumenta exponencialmente a morbidade (risco de fístulas urinárias e sangramento maciço) e não melhora a sobrevida. O tratamento padrão-ouro com intuito curativo é a quimiorradioterapia concomitante (radioterapia externa combinada com cisplatina semanal, seguida de braquiterapia intracavitária).
Análise dos Distratores:
- A: A cirurgia de Wertheim-Meigs restringe-se aos estádios iniciais (IA2 a IB2 e IIA1); em estádio IIIB com invasão parametrial/hidronefrose, a tentativa de ressecção é cirurgicamente inviável e oncológicamente inadequada.
- C: Histerectomia total simples corta através do tumor em fórnices e paramétrios, constituindo erro técnico grave de 'cirurgia inadvertida'.
- D: O tumor é localmente avançado, mas potencialmente curável com radio e quimioterapia concomitante; encaminhar unicamente para cuidados paliativos sem oferecer o tratamento oncológico padrão privaria a paciente da chance de controle e cura da doença.
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