Questão 33 — UNIFESP 2022
Primigesta de 36 semanas, 37 anos de idade, diabética gestacional, controlada com dieta e atividade física até a 26a semana, quando necessitou de insulina regular nas doses de 20 UI no café da manhã, 18 UI no almoço, 18 UI no jantar e 14 UI de insulina NPH às 21 horas. Teve bom controle glicêmico até a 35a semana, quando apresentou vários episódios de hipoglicemia. Qual é o diagnóstico mais provável?
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Alternativa Correta: A.
O caso clínico traz uma gestante com Diabetes Mellitus Gestacional (DMG) que necessitava de doses elevadas de insulina (70 UI/dia no esquema basal-bolus) para controle metabólico, mantendo estabilidade até que, na 35ª-36ª semana, passa a apresentar episódios recorrentes de hipoglicemia materna sem mudança dietética ou elevação deliberada da dose terapêutica.
Fisiopatologia da queda da necessidade de insulina no 3º trimestre tardio:
1. Eixo hormonal materno-placentário habitual: Durante a segunda metade da gestação normal, a placenta produz quantidades crescentes de hormônios hiperglicemiantes e contrainsulínicos — destacando-se o hormônio lactogênio placentário humano (hPL), somatomamotropina coriônica, progesterona, cortisol, prolactina e estrogênios. Esses hormônios geram um estado progressivo de resistência periférica à insulina para desviar glicose livre ao concepto, atingindo o ápice de resistência entre a 32ª e a 36ª semana de gestação. Em gestantes diabéticas, isso demanda elevações contínuas da dose de insulina exógena.
2. Sinal de alerta para insuficiência placentária: A redução súbita e inexplicada da necessidade de insulina materna e a ocorrência de episódios frequentes de hipoglicemia no final do terceiro trimestre constituem um clássico sinal semiótico de Insuficiência Placentária / Falência da Unidade Fetoplacentária. Com a perda da função e senescência do sinciciotrofoblasto vascular, a produção placentária de hPL e demais agentes contrainsulínicos despenca bruscamente. Ao cessar a resistência periférica induzida pela placenta, as doses habituais de insulina tornam-se excessivas e levam à hipoglicemia materna acentuada.
3. Relevância clínica e conduta: A constatação de insuficiência placentária nesse estágio gestacional representa iminente ameaça à vida fetal por hipóxia crônica, oligoidrâmnio e morte súbita intrauterina, impondo internação hospitalar urgente, investigação propedêutica imediata da vitalidade fetal (perfil biofísico fetal, cardiotocografia anteparto e Dopplervelocimetria da circulação uteroplacentária) e planejamento da resolução da gestação.
Análise detalhada das alternativas:
• Alternativa A (Correta): A disfunção do sinciciotrofoblasto reduz a secreção de hormônios contrainsulínicos, aumentando a sensibilidade materna à insulina e provocando hipoglicemias recorrentes com as doses prévias de insulina.
• Alternativa B (Incorreta): A insulina é um peptídeo de alto peso molecular que não ultrapassa a barreira placentária; eventuais flutuações na secreção pancreática do feto não têm nenhuma repercussão na homeostase glicêmica materna.
• Alternativa C (Incorreta): O aumento da resistência periférica materna à insulina produziria hiperglicemia e exigiria doses crescentes de insulina exógena, e não crises hipoglicêmicas repetidas.
• Alternativa D (Incorreta): O lactogênio placentário é o principal mediador da resistência contrainsulínica gestacional. Sua elevação acentuaria o estado hiperglicêmico; a hipoglicemia decorre exatamente da sua queda patológica secundária à insuficiência trofoblástica.
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