Questão 8 — UNIFESP 2022
Homem, 45 anos de idade, vítima de ferimento por projétil de arma de fogo com orifício de entrada no glúteo esquerdo, sem orifício de saída. Toque retal: presença de sangue e espículas ósseas no reto, com laceração de mais de 50% da parede posterior do reto, a 6 cm da borda anal. Tomografia com contraste e fase excretora: fratura do sacro e ísquio direito, sem lesão vascular ou do trato urinário. A conduta mais adequada na urgência é:
Ver Resposta e Comentário
Alternativa Correta: C.
O paciente é vítima de traumatismo penetrante na pelve por projétil de arma de fogo (PAF) transfixando o glúteo e a bacia. O toque retal e a tomografia identificaram uma lesão extensa (> 50% da circunferência) da parede posterior do reto a 6 cm da margem anal, acompanhada de fratura do sacro e espículas ósseas intraluminais.
Anatomia Cirúrgica e Abordagem do Trauma Retal:
- A reflexão peritoneal situa-se a aproximadamente 7 a 9 cm da borda anal anteriormente e 12 a 15 cm posteriormente. Uma lesão na parede posterior a 6 cm da margem anal encontra-se indubitavelmente no reto extraperitoneal / subperitoneal.
- Diferente do reto intraperitoneal (onde a conduta preferencial é o reparo primário das lesões simples), o reto extraperitoneal está envolvido pela fáscia mesorretal e pelo espaço pré-sacral / retroperitoneal. Lacerações penetrantes amplas comunicando a luz retal com ossos fraturados acarretam altíssimo risco de fasciíte necrotizante pélvica, abscessos pré-sacrais profundos e osteomielite sacral decorrentes da contaminação polimicrobiana por fezes.
A Estratégia Clássica dos "4 Ds" no Trauma de Reto Extraperitoneal Grave:
- Derivação Fecal (Diversion): Colostomia em alça de sigmoide (ou sigmoidostomia terminal com fístula mucosa) via laparotomia exploradora, indispensável para interromper a passagem de fezes sobre o segmento lesionado;
- Drenagem Pré-sacral (Drainage): Abertura do espaço retroretal (via acesso perineal para-anal ou pré-coccígeo) com colocação de drenos de sucção ou Penrose junto à fratura sacral, permitindo a evacuação de hematomas e contaminação bacteriana;
- Lavagem do Reto Distal (Distal washout): Remoção mecânica completa do bolo fecal retido no reto distal entre a colostomia e a lesão;
- Desbridamento / Reparo Primário (Debridement / Repair): Quando tecnicamente exequível sem dissecações pélvicas excessivas. Em lacerações de mais de 50% profundas e inacessíveis, o desvio e a drenagem constituem o pilar de controle de danos cirúrgico.
Nota sobre diretrizes contemporâneas: Em lesões de reto extraperitoneal menores/não destrutivas, diretrizes modernas de trauma (EAST e WSES) demonstram que a derivação isolada pode ser suficiente, dispensando drenagem pré-sacral ou washout rotineiros. Contudo, em lesões destrutivas graves (> 50% de circunferência), com estilhaçamento e fratura óssea associada como a descrita, o tripé de derivação, drenagem retrorretal e lavagem distal permanece a resposta clássica consagrada nos concursos médicos.
Por que as outras alternativas estão incorretas?
- A: A abordagem transanal isolada não confere exposição cirúrgica suficiente para a rafia segura de uma laceração posterior extensa a 6 cm do ânus, além de manter o paciente vulnerável à contaminação fecal sem desvio proximal.
- B: A retossigmoidectomia de urgência com anastomose colorretal em pelve contaminada por trauma balístico e fratura pélvica é uma intervenção de grande porte desnecessária e com elevada incidência de deiscência de anastomose e sepse.
- D: O posicionamento de próteses metálicas autoexpansíveis endoscópicas é restrito a neoplasias e fístulas selecionadas, não integrando os algoritmos de controle de danos no trauma retal penetrante agudo.
Domine as provas de Residência.
Tenha acesso a milhares de questões focadas em Residência Médica e Revalida, simulados ilimitados e estatísticas de desempenho.
Ver Planos PROEstratégia Med
Buscando cursos em vídeo? Garanta 10% de desconto no Estratégia Med.