Questão 98 — UNIFESP 2022
Mulher, 25 anos de idade, refere disúria e polaciúria há 6 dias, evoluindo com dor lombar e febre, com necessidade de internação. Sem doenças prévias. Ao exame físico, apresenta-se torporosa, com temperatura de 38 °C, PA = 80/60 mmHg, FC = 110 bpm, FR = 24 irpm. Após expansão volêmica e coleta de hemocultura e urocultura, qual é a estratégia de tratamento antimicrobiano mais adequada?
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Alternativa Correta: C.
A paciente apresenta quadro clínico de infecção do trato urinário alta (pielonefrite aguda) complicada por sepse com disfunção orgânica múltipla e choque séptico em evolução: presença de infecção documentada associada a alteração do estado mental (torporosa), febre (38 °C), hipotensão arterial sistêmica (PA = 80/60 mmHg), taquicardia (FC = 110 bpm) e taquipneia (FR = 24 irpm), com escore qSOFA = 3 (PA sistólica ≤ 100, FR ≥ 22, alteração do nível de consciência).
De acordo com as diretrizes internacionais da Surviving Sepsis Campaign (SSC) e do Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS):
- Janela Terapêutica da Primeira Hora ("Golden Hour"): Em pacientes com sepse ou choque séptico, a administração de antimicrobianos intravenosos de amplo espectro é uma intervenção emergencial de altíssima prioridade, devendo ser iniciada idealmente dentro da primeira hora após o reconhecimento do quadro clínico e logo após a coleta imediata de culturas microbiológicas (duas amostras de hemoculturas e urocultura), sem que a coleta retarde o início da terapia. Cada hora de atraso no início do antimicrobiano adequado associa-se a aumento progressivo e estatisticamente significativo da mortalidade hospitalar.
- Espectro Terapêutico Inicial: O foco primário evidente é o trato urinário, cuja etiologia comunitária é predominantemente composta por bacilos gram-negativos entéricos (principalmente Escherichia coli e outras enterobactérias). Por se tratar de paciente jovem, previamente hígida, sem histórico de internações hospitalares recentes, uso de antimicrobianos ou procedimentos urológicos invasivos, a cobertura empírica deve contemplar bastonetes gram-negativos comunitários com fármaco de amplo espectro (como ceftriaxone intravenoso), sem necessidade de terapia combinada ou agentes de reserva para germes multirresistentes.
Por que as demais alternativas estão incorretas?
- Alternativa A: Não há fatores de risco epidemiológicos para bactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido (ESBL), Pseudomonas aeruginosa multirresistente ou enterobactérias resistentes a carbapenêmicos (CRE). A combinação de múltiplos antibióticos aumenta toxicidade e pressão seletiva sem benefício clínico comprovado nesse perfil de paciente comunitária.
- Alternativa B: Aguardar resultados microbiológicos (que demoram de 24 a 72 horas) em um paciente instável hemodinamicamente com sepse grave é uma conduta inaceitável e letal.
- Alternativa D: A gravidade clínica do choque séptico exige rapidez de infusão e espectro adequado aos patógenos prováveis, mas não autoriza a prescrição indiscriminada de antimicrobianos de reserva contra multirresistentes (como meropenem ou polimixinas) em infecções comunitárias primárias sem histórico de colonização ou exposição a cuidados de saúde. Ademais, com o resultado de culturas ajusta-se a terapia por descalonamento (descalonamento terapêutico direcionado), e não "escalonamento".
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